8 de setembro de 2026
No dia 5 de setembro, aconteceu em Quarrata, na Toscana (Itália), a 33ª Marcha pela Justiça.

Tommaso Vermigli, Diretor do IREE Europa, discursa na 33ª Marcha pela Justiça
Tive a honra, mais uma vez, também como Diretor do IREE Europa, de coordenar o comitê organizador da Marcha pela Justiça que, ao longo dos anos, se tornou muito mais do que uma manifestação: é uma comunidade de pessoas e organizações que compartilham o compromisso com a justiça, a paz e a construção de uma sociedade mais humana.
Neste ano, escolhemos como título do evento “O presente não basta para ninguém”, título de um livro do padre Arturo Paoli, que viveu décadas no Brasil, e um mote para refletir juntos sobre o nosso presente.
A escolha não foi casual. Queríamos partir da realidade, olhar para o mundo em que vivemos e para os desafios que ele nos apresenta, sem perder a esperança e, sobretudo, sem abrir mão da responsabilidade de transformá-lo.
A Marcha também nasceu, nesta edição, com um propósito muito claro: ampliar o espaço de participação dos jovens. Como tenho defendido durante a organização do encontro, queremos que a Marcha seja um lugar de encontro entre jovens e adultos, onde a escuta, a reflexão, a palavra e a arte possam ser instrumentos para interpretar o presente e imaginar o futuro.

Gherardo Gambelli, Arcebispo de Florença, discursa sobre sobre liberdade, justiça, fraternidade na 33ª Marcha pela Justiça
Por isso, o Seminário dos Jovens reuniu, durante toda a tarde, quase uma centena de participantes, acompanhados por dezenas de educadores. Divididos em grupos de trabalho, eles discutiram o significado do tema da Marcha a partir de suas próprias experiências e escolheram seus porta-vozes. À noite, levaram essas reflexões para o palco e compartilharam com a praça suas ideias sobre o presente que vivemos e sobre o futuro que desejam construir.
Foi um dos momentos que mais me marcou nesta edição. Dar voz aos jovens significa também reconhecer que eles não são apenas os destinatários das decisões tomadas hoje, mas protagonistas da sociedade que estamos construindo.
A arte também teve um papel central. Jovens bailarinas e bailarinos do Laboratório Acadêmico de Dança, uma escola de dança localizada próxima a Quarrata, além de participarem do Seminário dos Jovens, apresentaram um espetáculo inspirado no assunto da Marcha, resultado do 14ª Campus de Aperfeiçoamento Avançado em Dança, intitulado “Harmonia entre os povos”, realizado ao longo da semana que antecedeu a Marcha. A dança mostrou, de outra maneira, aquilo que está no centro da nossa reflexão: a possibilidade de encontro entre pessoas diferentes e a construção de relações baseadas na harmonia e no respeito e, ao mesmo tempo, a vivência da arte como instrumento universal de paz e justiça.
À noite, recebemos convidados com trajetórias muito diferentes, mas unidos por uma preocupação comum com o presente.

Padre Luigi Ciotti, uma presença histórica da Marcha pela Justiça, na fala de encerramento.
Marialuisa Rovetta compartilhou sua história como filha de Alessandro Rovetta, assassinado pela Cosa Nostra em Catânia, em 1990.
Roberto Sparagna, Vice-Procurador-Geral de Justiça de Turim e ex Promotor de Justiça da Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo da Itália, falou sobre suas principais investigações sobre a ‘Ndrangheta em Turim, na Itália e no mundo (inclusive no Brasil), bem como sobre as atuais transformações do crime organizado e os desafios para seu enfrentamento.
Também ouvimos a jornalista Lucia Capuzzi, do jornal italiano Avvenire, que trouxe seu olhar sobre as guerras do nosso tempo, a partir da experiência de quem, por seu trabalho, é chamada a respirar, observar e contar a guerra.
Sua Excelência Monsenhor Gherardo Gambelli, Arcebispo de Florença, refletiu sobre liberdade, justiça, fraternidade e o papel da Igreja diante de um mundo marcado novamente por medos, divisões e conflitos.
Padre Luigi Ciotti, uma presença histórica da Marcha pela Justiça, encerrou o ciclo de intervenções. Sua trajetória nos lembra que denunciar as injustiças não é suficiente: é preciso transformar a indignação em compromisso e “dar-se ao trabalho” de construir mudanças concretas.
Ao longo da noite, voltamos diversas vezes ao pensamento de Arturo Paoli. Para ele, a formação dos jovens deveria contribuir para torná-los livres e autônomos, capazes de fazer escolhas responsáveis e de reconhecer na diversidade uma riqueza. Em um momento em que vemos crescer a intolerância, o medo e as divisões, essa mensagem permanece especialmente atual.
Organizar esta edição significou ampliar a participação da sociedade civil. Aos organizadores históricos — Casa da Solidariedade, Rete Radié Resch, Libera: Associações, nomes e números contra as máfias e a Prefeitura de Quarrata — juntaram-se neste ano o Parque Verde e a DanceLab Harmonia. Diversas outras organizações, associações, paróquias e grupos da sociedade civil contribuíram para a realização do encontro. Muitas instituições públicas também aderiram à Marcha por meio de seus representantes, como a Região da Toscana, a Província de Pistoia, as Prefeituras de Florença, Prato e Pistoia, além de muitas outras Prefeituras das províncias de Pistoia e de Prato. A Diocese de Pistoia e Pescia também aderiu à Marcha, representada pelo Vigário-Geral da Diocese, já que o Bispo estava em Roma, cumprindo outros compromissos.

Jovens levam ao palco da 33ª Marcha pela Justiça as reflexões do seminário sobre o presente que vivemos e sobre o futuro que desejam construir.
Esse crescimento dos organizadores é importante porque a Marcha não pertence a uma única organização. Ela é fruto de um caminho coletivo e, a cada ano, buscamos fazer com que mais pessoas e organizações possam participar desde a sua construção.
Por isso, quando dizemos que “o presente não basta para ninguém”, não estamos falando de uma simples insatisfação com o mundo em que vivemos. Estamos afirmando que a realidade pode e deve ser transformada. Que não podemos nos acostumar com a injustiça, a violência, a desigualdade e a indiferença.
A 33ª Marcha pela Justiça terminou, mas esse caminho continua. Se o presente não basta, cabe a nós construir, juntos, aquilo que ainda não existe.
Continuemos, portanto, a caminhar. E, sobretudo, a semear justiça e paz no nosso presente.
Não ganhamos o voto de presente
Encontro em Palermo discute cooperação internacional no combate ao narcotráfico
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Tommaso Vermigli
Diretor do IREE Europa.
Leia também
Panorama da saúde mental no Brasil
Continue lendo...
O voto dos idosos faz diferença
Continue lendo...
O karma é sempre dos outros
Continue lendo...