O karma é sempre dos outros – IREE

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O karma é sempre dos outros

31 de agosto de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Este texto começou numa conversa com minhas colegas aqui do IREE. Eu contava uma coisa que tinha acontecido alguns dias antes, em frente à minha casa, e que continuou me incomodando muito depois de terminar. Da janela, vi um senhor bastante idoso andando com enorme dificuldade pela rua. Ele caiu, conseguiu se levantar, caminhou mais um pouco e caiu novamente. Fiquei observando por algum tempo, até perceber que aquilo não ia terminar bem se ninguém fizesse alguma coisa e que eu teria que descer. Depois descobri que ele tinha 85 anos, vendia algodão-doce e estava tentando voltar para casa.

Não conto essa história porque tenha qualquer interesse em registrar que ajudei um senhor de 85 anos a chegar na sua casa. Seria muito mais confortável se a história fosse essa, porque eu poderia encerrá-la ocupando o papel de uma pessoa solidária que viu alguém em dificuldade e decidiu ajudar. O que ficou comigo foi o que aconteceu antes de eu descer. Enquanto observava aquele homem cair, da minha janela pensava no que ele teria feito para chegar àquela situação. Em algum ponto desse pensamento apareceu a palavra “karma”. Foi rápido, mas não rápido o suficiente para que eu não percebesse o absurdo. Eu estava dentro da minha casa, em uma posição evidentemente privilegiada, procurando uma explicação metafísica para um homem de 85 anos que ainda precisava vender algodão-doce e mal conseguia caminhar de volta para casa.

Foi contando isso às minhas amigas que a conversa mudou de direção. Começamos falando sobre karma e terminamos discutindo uma coisa bem mais ampla, a facilidade com que recorremos ao sobrenatural para produzir explicações morais para acontecimentos que não possuem qualquer conteúdo moral. Não me interessa discutir aqui se karma existe, se o universo interfere em nossas vidas ou se há alguma ordem transcendente que não conseguimos compreender. Minha questão é outra e, para mim, mais incômoda. Por que a ideia de que as pessoas recebem aquilo que merecem nos seduz tanto? E, principalmente, o que essa crença produz quando deixa de ser uma elaboração privada sobre o sentido da existência e passa a funcionar como explicação para o sofrimento, o fracasso e a desigualdade?

Há uma explicação conhecida da psicologia social para esse mecanismo, a tendência a supor que existe correspondência entre aquilo que as pessoas fazem e aquilo que lhes acontece, como se o mundo distribuísse consequências de acordo com o mérito de cada um. Não é difícil compreender por que precisamos, em alguma medida, acreditar nisso. Um mundo em que nossas escolhas possuem consequências previsíveis é psicologicamente mais suportável do que um mundo radicalmente contingente, no qual podemos agir corretamente e, ainda assim, perder tudo. A crença de que esforço, prudência, bondade ou responsabilidade aumentam nossas chances de uma vida melhor é também aquilo que permite planejar o futuro e atribuir sentido às próprias decisões.

O problema começa quando essa expectativa de previsibilidade se transforma numa teoria moral sobre o destino. Se acreditamos que o mundo é essencialmente justo, precisamos encontrar uma explicação para as situações em que ele evidentemente não é. É nesse ponto que a pergunta deixa de ser “por que isso aconteceu?” e se transforma, quase imperceptivelmente, em “o que essa pessoa fez para que isso acontecesse?”. A mudança parece pequena, mas altera completamente a posição de quem observa. O sofrimento deixa de ser uma circunstância a ser compreendida e passa a carregar uma suspeita de merecimento.

Essa necessidade de preservar uma percepção de ordem contribui para a culpabilização de vítimas e para a racionalização de desigualdades. Se admitirmos que uma pessoa pode sofrer enormemente sem ter feito absolutamente nada que justifique esse sofrimento, somos obrigados a admitir também uma quantidade desconfortável de acaso, injustiça e descontrole na experiência humana. Pessoas cuidadosas sofrem acidentes, crianças adoecem, mulheres são violentadas, trabalhadores envelhecem pobres depois de uma vida inteira de trabalho e pessoas moralmente condenáveis vivem longamente com conforto e prestígio. Não há, na experiência social concreta, distribuição confiável de felicidade e sofrimento proporcional à qualidade moral das pessoas.

É aí que determinadas apropriações do sobrenatural oferecem uma resposta extraordinariamente confortável. Digo “determinadas apropriações” porque seria intelectualmente desonesto responsabilizar a fé por um mecanismo psicológico muito anterior a ela, que aparece também em discursos perfeitamente seculares. Tradições religiosas produziram concepções sofisticadas de responsabilidade, dever, solidariedade e cuidado com o outro. O próprio conceito de karma, nas tradições em que se desenvolveu, é muito mais complexo do que a versão ocidentalizada que o transformou num sistema automático de recompensa e punição.

Minha crítica não é à fé, é à utilização da fé como teoria do merecimento. Essa distinção importa porque o problema não está apenas na frase aparentemente inofensiva de que “cada um colhe o que planta”. O problema está naquilo que essa frase permite concluir sobre quem está colhendo alguma coisa terrível. Quando dizemos que uma pessoa vive determinada experiência porque precisa aprender alguma coisa, porque carrega um karma, porque não estava suficientemente alinhada ou porque o universo tinha um propósito, oferecemos sentido a uma experiência dolorosa, e isso muitas vezes é legítimo e necessário. Mas também fazemos outra coisa: retiramos da experiência sua dimensão histórica, econômica, política ou aleatória e devolvemos a causa ao próprio indivíduo.

Essa operação fica mais clara ao lado de dois fenômenos estudados pela psicologia social, o viés de autosserviço e os vieses de atribuição. Temos uma capacidade considerável de interpretar os acontecimentos de forma compatível com uma imagem positiva de nós mesmos. Conhecemos as circunstâncias que explicam nossas falhas, mas não necessariamente aquelas que explicam as falhas dos outros. Sabemos que fomos agressivos porque estávamos exaustos, que nos afastamos porque precisávamos nos preservar, que tomamos determinada decisão porque naquele momento não víamos alternativa. Quando observamos o outro, temos acesso principalmente ao comportamento, e por isso é mais fácil transformar seus atos em características de personalidade. Nossas falhas chegam acompanhadas de contexto; as dos outros chegam como caráter. O discurso do merecimento se incorpora a esse mecanismo com eficiência particular porque oferece causalidade exatamente onde a causalidade é difícil de estabelecer.

E há uma assimetria reveladora na forma como fazemos isso. Quando alguma coisa dá certo em nossas vidas, reivindicamos participação no resultado com relativa facilidade: trabalhamos, estudamos, amadurecemos, fizemos boas escolhas, tivemos coragem. Numa versão mística do mesmo raciocínio, manifestamos, mudamos nossa energia, aprendemos a escolher melhor, entramos em alinhamento com aquilo que queríamos. Quando as coisas dão errado, nossa autoria se torna mais negociável e aparecem o destino, a energia, o universo, o karma, a necessidade de viver determinada experiência. Individualizamos o mérito e metafisicizamos o fracasso.

A proximidade entre essa lógica e determinados discursos contemporâneos sobre meritocracia é difícil de ignorar, ainda que karma e meritocracia não sejam conceitos equivalentes. O que eles compartilham é uma estrutura de legitimação baseada no merecimento, que opera nos dois registros de forma simétrica, da mesma maneira que a meritocracia, quando vira explicação total para posições sociais, permite concluir que quem prosperou merece a prosperidade e quem fracassou carrega responsabilidade essencial pelo fracasso, a crença numa ordem moral que distribui consequências transforma toda posição social contingente em algo que parece adequado, merecido, ou simplesmente natural. Sociedades profundamente desiguais precisam dessas narrativas para tornar suas desigualdades inteligíveis e toleráveis, e nem toda legitimação da desigualdade vem do Estado, da economia ou de uma ideologia política organizada, ela também aparece nas pequenas explicações cotidianas que oferecemos para justificar por que algumas pessoas têm muito e outras quase nada.

Foi por isso que a cena da janela começou a me incomodar tanto. Entre mim e aquele homem não havia diferença espiritual nenhuma que eu fosse capaz de conhecer. Havia uma diferença material evidente. Eu estava dentro de casa e ele, aos 85 anos, precisava vender algodão-doce e percorrer a rua a pé. Entre a minha janela e a calçada estavam renda, idade, condições de trabalho, oportunidades acumuladas ao longo de décadas, acesso a redes de proteção, políticas públicas, relações familiares, saúde e uma quantidade impossível de calcular de sorte e acaso. Procurar uma explicação no karma não acrescentava conhecimento algum sobre aquela situação. Retirava dela justamente aquilo que havia de mais concreto.

Há ainda uma consequência mais desconfortável, porque toda teoria do merecimento funciona nos dois sentidos. Se aceito que o sofrimento de alguém corresponde àquilo que essa pessoa fez, preciso admitir que meu conforto também corresponde ao que eu fiz. A crença de que aquele homem merecia a situação em que se encontrava continha, em silêncio, a presunção de que eu merecia a minha. Espiritualizar o sofrimento alheio também naturaliza o privilégio, aquilo que recebi deixa de ser resultado de uma combinação de esforço, circunstâncias e vantagens e passa a parecer evidência de uma qualidade moral minha.

Reconhecer isso não exige negar responsabilidade individual. Esse seria apenas o erro inverso. Pessoas fazem escolhas, escolhas produzem consequências, e há situações em que aquilo que chamamos de destino é a repetição de comportamentos dos quais não queremos assumir responsabilidade. Também seria ingênuo usar a estrutura social como explicação automática para cada decisão individual. O ponto está em resistir à tentação das explicações totais. Nem tudo o que nos acontece é escolha, assim como nem tudo é estrutura; nem todo sofrimento é consequência de uma decisão, assim como nossas decisões não são irrelevantes para a vida que construímos.

A ideia de karma, em sua versão vulgarizada, é sedutora porque resolve uma complexidade imensa com uma causalidade simples. Mais do que isso, preserva a sensação de que existe uma ordem moral no mundo e, portanto, de que estamos relativamente protegidos enquanto continuarmos nos considerando boas pessoas. É uma crença reconfortante porque a alternativa exige reconhecer que a virtude não funciona como seguro contra a tragédia e que o privilégio não é certificado de mérito.

Minha implicância não é com a fé. Eu mesma não conseguiria escrever honestamente a partir de outro lugar. É com a facilidade com que transformamos a fé numa muleta para evitar perguntas que nos comprometem. Em vez de nos ajudar a enfrentar a realidade, ela é convocada para torná-la moralmente mais confortável. A questão deixa de ser o que determinadas condições sociais produziram, quais responsabilidades estão envolvidas ou o que podemos fazer diante de determinada situação, e passa a ser qual sentido invisível explica aquilo que estamos vendo.

Quando voltei mentalmente àquele senhor, percebi que a pergunta que fiz da janela era profundamente presunçosa. Eu não sabia praticamente nada sobre aquele homem. Não sabia que escolhas havia feito, quem havia amado, quem havia ferido, quanto havia trabalhado, quais oportunidades teve ou deixou de ter. Ainda assim, por um instante, achei razoável procurar em sua biografia moral uma explicação para o fato de ele estar caindo na rua aos 85 anos enquanto eu o observava de dentro da minha casa.

A crença de que cada um recebe o que merece não exige apenas fé numa ordem moral do universo. Exige uma confiança ainda maior na nossa própria capacidade de interpretá-la, de ler numa vida inteira que não conhecemos a prova de uma justiça que só nos convém enquanto formos nós a julgar. Foi essa confiança, e não o karma, que eu vi cair na calçada junto com aquele homem.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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