30 de junho de 2026
Vinicius Junior é um atleta que conquistou praticamente tudo o que um clube pode oferecer na Europa. E isso antes mesmo de alcançar, com a camisa da Seleção Brasileira, a mesma autoridade simbólica que construiu no Velho Mundo. Os jogos da Seleção na Copa do Mundo de 2026 estão alçando nosso camisa 7 a um novo patamar de reconhecimento dentro do seu país. Coisas do futebol: “como se ter ido fosse necessário para voltar, tanto mais vivo”, citando Back in Bahia, do mestre Gilberto Gil.
Desde as categorias de base, nas seleções Sub-15 e Sub-17, Vini aparece como um talento raro, capaz de decidir partidas e justificar o entusiasmo que o cercava. A passagem para a equipe principal, porém, revela uma verdade conhecida no futebol brasileiro: vestir a amarelinha nunca foi apenas um desafio técnico, mas também um exercício permanente de representação nacional, de ser amado (ou odiado) pelo seu próprio povo.
Quando finalmente chega à Seleção principal, Vinicius encontra um ambiente em que o protagonismo já possui dono: Neymar, aquele sobre quem recaía a responsabilidade de assumir os compromissos da Canarinho. Vini chega ocupando um espaço periférico, mas o melhor jogador da Seleção, em um futuro muito próximo, ainda precisaria aprender a existir dentro de uma equipe construída em torno de outro protagonista.
A Copa do Mundo de 2022 parece inaugurar uma mudança. Contra Sérvia e Coreia do Sul, participa diretamente dos principais momentos da equipe e oferece uma amostra do jogador dominante que já encantava. Mas o roteiro muda, e a eliminação para a Croácia encerra não apenas a campanha brasileira, mas também a possibilidade de transformar aquele Mundial na Copa de Vinicius.
Existe uma diferença entre ser o melhor jogador de um clube e tornar-se o rosto de uma seleção nacional. Clubes oferecem continuidade, tempo, método, uma única torcida, desafios mais “caseiros” e convivência diária. Seleções vivem de encontros breves, pressão acumulada, todas as torcidas unidas em uma só e memória coletiva viva. No Brasil, essa memória tem um peso particular: cada geração procura o sucessor de Pelé, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho ou Neymar antes mesmo que qualquer jogador esteja pronto para ocupar esse lugar.
A Copa América de 2024 sintetiza essa tensão. Os dois gols contra o Paraguai sugerem que finalmente assumiria esse papel. A suspensão por cartões, justamente antes das quartas de final, interrompe essa narrativa e recoloca o atacante diante da mesma pergunta que acompanha toda a sua trajetória na Seleção: por que o jogador que decide finais europeias ainda não conseguiu produzir uma campanha memorável com a camisa do Brasil? O futebol brasileiro não deposita suas esperanças em um coletivo, mas em indivíduos.
Cada vez mais, Vinicius Júnior assume um posto que há muito lhe era esperado: suceder Neymar à frente da Seleção Brasileira. Independentemente do resultado final do Brasil nesta Copa, ela simboliza esse “rito de passagem”, em que nomes como Endrick, Matheus Cunha, Rayan e outros assumam os lugares de jogadores que, ainda pertencentes ao time atual, deverão ceder seus lugares para que, aí sim, possamos ver um novo e mais confiante espírito do futebol brasileiro renascer.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Diego Jandira
É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.
Leia também
O futebol feminino jogado fora dos gramados
Continue lendo...
O Careca, Barrabás e O último Idiota
Continue lendo...