4 de março de 2026
Os diferentes modos de relação com a arte dão pistas da invenção simbólica de um país. Nesse processo, a história da arte, com suas continuidades e descontinuidades discursivas, é uma importante ferramenta para a identificação dos traços persistentes que costumam direcionar o olhar e a compreensão dos fenômenos brasileiros. Presos a entendimentos já cristalizados, não conseguimos enxergar a riqueza de produções que, ignorando protocolos canônicos da história da arte, fornecem outras possibilidades de pensar o país em sua complexidade e com suas ambiguidades. Rasurando narrativas prontas, convocamos outra forma de ver ou ler imagens. Trata-se, talvez, de sustentar a pergunta: como narrar a história (da arte) brasileira?
A questão da identidade, na arte e na cultura, é central e fonte de debates e trânsitos do contemporâneo. Artistas como Véio e José Antonio da Silva refundam a historiografia no país e o lugar da subjetividade, recolocando o uso das imagens em novas perspectivas. A “disputa” de narrativas e os modos de montar um redesenho geográfico também se fazem fora do eixo Rio-São Paulo, por pessoas que se fizeram artistas inscrevendo seus trabalhos pelas margens.
Como no trabalho do artista sergipano Véio – que, por gostar de ouvir as conversas dos mais velhos, ganhou o apelido de outras crianças –, entre histórias escritas e contadas encontramos palavras, gestos, imagens, objetos e outros entrelaçamentos. Nascido em 1947 em Nossa Senhora da Glória, Cicero Alves dos Santos encontrou um caminho para esculpir e redesenhar o mundo. Desde menino, o fascínio por casos e lendas da cultura sertaneja acompanha o artista. São essas histórias que compõem a base de “Bonecos de pau”. Trata-se da sua vida, romanceada de forma emocionante por suas filhas Julia e Katiuscia. O livro, recém-lançado pela editora WMF Martins Fontes, inclui narrativas do folclore, dos assombrados, dos lobisomens e outros seres que vivem em sua memória e em sua obra, mas fala sobretudo do menino que se distraía fazendo bonecos com cera de abelha. Mais que uma biografia, o livro conta a história da transmissão da invenção diante da escassez, uma herança simbólica do pai para as filhas, que a capturam com sensibilidade.
Com um modo próprio para além do cânone, José Antonio da Silva (1909-1996) foi capaz de traduzir, em pinturas, a vida social e religiosa de sua comunidade, criando composições visuais que transbordam inventividade. Uma excelente mostra de sua obra está exposta no MAC-USP – “José Antonio da Silva: pintar o Brasil”, em cartaz até o 15/03/2026. Gabriel Pérez-Barreiro, curador da exposição, lembra que “acidentalmente, talvez, ele tenha criado, entre as artes popular e erudita, um terceiro espaço que continua particularmente relevante hoje”. A exposição não tem a pretensão de oferecer uma cronologia ou uma retrospectiva do artista, mas de explorar os diferentes temas de sua obra.
José Antonio da Silva nasceu na cidade de Sales Oliveira, interior de São Paulo. Seus trabalhos retratam muitas transformações que mudaram o Brasil rural no século 20: a destruição da natureza, o avanço da agricultura e da pecuária no interior de São Paulo, a industrialização do campo com a chegada de ferrovias e indústrias. A mostra, entretanto, busca demonstrar que seu trabalho não se limita ao universo agrário. Seu vocabulário plástico é amplo e complexo e sua obra pode ser compreendida como uma forma singular e radical de reescrever o país. É o próprio artista quem anuncia: eu sou o Silva, eu sou o Brasil. Em “Romance da Minha Vida”, Fernanda Pitta nos lembra que Silva é, simultaneamente, protagonista e narrador, sujeito e agente de sua própria história. Pintor autodidata, além da 1ª Bienal de São Paulo, participou também de outras edições – inclusive da 33ª Bienal de Veneza – mas, por não se enquadrar em critérios de seleção preconceituosos, foi rejeitado em outras mostras da instituição.
No ensaio escrito no livro que resultou e recebeu o mesmo nome da exposição, Vanine Borges Amaral afirma: “Silva é pioneiro em adentrar nos espaços culturais e artísticos , sendo alguém que não passou por uma formação institucionalizada. Ao mesmo tempo, sua obra autoral se fundamenta em narrar coletividades, preservando e socializando saberes típicos daqueles que habitam os tempos e espaços rurais do país“. O caleidoscópio da obra de José Antonio da Silva revela questões altamente atuais como a seca, as queimadas oriundas da monocultura predatória e os dramas – ecológico, social, ético e humano – que afetam todos dramaticamente, atravessam a nação de forma contundente e deixam o país com tristes e profundas feridas.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Bianca Coutinho Dias
É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).
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