Vacinação e retomada do auxílio emergencial ajudam recuperação da economia – IREE

Análises

Vacinação e retomada do auxílio emergencial ajudam recuperação da economia

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre setores produzida pelo Centro de Estudos de Economia do IREE, na edição semanal do Boletim Econômico de julho de 2021!

No mês de maio, os principais indicadores de atividade setorial deram sinais de recuperação. No front interno, os bons ventos vieram em decorrência da aceleração da vacinação e a nova rodada do auxílio emergencial. A possibilidade de reabertura dos estabelecimentos combinada à disponibilidade de renda para as famílias permitiu recuperação da demanda doméstica. Externamente, o bom crescimento da economia mundial – com destaque para EUA e China – e a expectativa de maior crescimento no ano – motivada em boa medida pelo pacote robusto de estímulos do governo Biden – sopraram a favor da economia brasileira. Mesmo que ainda afetada pela turbulência, a correnteza favorável fez todos os setores da economia avançarem em maio, sem grandes surpresas.

gráfico setores julho

A indústria registrou alta de 1,4% na comparação com abril, descontados os efeitos da sazonalidade, fruto de expansões tanto no ramo extrativo (+2,0%) quanto no ramo de transformação (+1,2%). Após 3 meses consecutivos de quedas na margem, a produção industrial voltou a performar no azul, recuperando novamente o patamar anterior à pandemia. Ressalta-se, todavia, que ainda se encontra abaixo do nível do fim de 2020.

Se, por um lado, analistas do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) chamam de um “novo começo do ano” para a indústria, por outro, os mesmos relembram as dificuldades que o setor ainda enfrenta pela persistência de uma recuperação deveras heterogênea entre os subsetores. Metade destes ainda estão em patamar abaixo do nível pré-pandemia e sujeitos a efeitos negativos potencialmente multiplicados em decorrência das interligações econômicas. É o caso do segmento de confecções (-14,8% com relação à fev/20) que, por ser intensivo em mão de obra, têm seu efeito dissipado através do emprego; e o segmento automotivo (-11,3% na mesma comparação), pela extensa cadeia de produção a ele atrelada.

Tanto o setor de serviços quanto o varejo também registraram altas em maio. Enquanto os serviços apresentaram expansão de 1,2% na margem, livre de efeitos sazonais, o índice restrito do varejo acusou +1,4%, na mesma comparação. Ambos os setores tiveram o resultado positivo motivado pelas flexibilizações das restrições de isolamento social, em decorrência da expansão da vacinação, e da liberação do auxílio emergencial.

Dessa forma, os principais responsáveis pela puxada dos setores foram justamente aqueles que estavam com a base mais deprimida. No setor de serviços destacam-se os prestados às famílias, que apresentaram +17,9% na margem, e os serviços de transportes e correio, com +3,7%. Com relação ao transporte, merece destaque o transporte aéreo, que apresentou expansão de 60,7%. Este foi um dos segmentos mais impactados pela pandemia, com fechamento de aeroportos, cancelamento de voos e restrições internacionais; apesar da alta expressiva, ainda se encontra 28,9% abaixo do patamar de fevereiro de 2020.

Ainda assim, existem sinais que acendem alertas sobre a resiliência dos últimos resultados e da retomada como um todo. Como já apontado em boletins anteriores, a lenta retomada do mercado de trabalho é um dos principais fatores de preocupação, assim como a queda dos rendimentos, comprometendo a capacidade de recuperação da demanda interna.

A crise hídrica, por sua vez, já tem se refletido em altas das tarifas de energia, representando um outro potencial freio à atividade econômica. Por um lado, pelo próprio comprometimento da renda das famílias pela alta do preço da energia nas residências. Por outro, pelo impacto no preço dos produtos, por conta da elevação dos custos da indústria. A perspectiva de repasse dos preços das tarifas para os preços finais é um dos elementos que compõe o cenário de perspectiva de inflação acima da meta em 2021. No último Boletim Focus do Banco Central a expectativa de inflação passou para 6,1%; o centro da meta para o ano é 3,75% com tolerância até 5,25%. O patamar desconfortável da inflação também deve trazer prudência às análises com relação à retomada.

Finalmente, o risco de que a inflação pressione para uma elevação da taxa de juros (hoje em 4,25%, com projeção do mercado de encerrar o ano em 6,5%), também deve ser considerado como um foco de possível preocupação com relação à retomada. O elevado grau de endividamento das famílias e das empresas, somado ao fim dos programas de crédito do governo para o enfrentamento à pandemia em um cenário de alta da taxa de juros pode prejudicar as condições de pagamento e refinanciamento, freando a retomada.

Os bons ventos que sopram na economia hoje têm tudo para serem ainda mais sentidos nos próximos meses com a aceleração da vacinação e com o crescimento da economia global. Contudo, há que se ficar atento às nuvens de chuva que pairam no horizonte. Sobre um barco frágil como a economia brasileira – com tripulação desempregada e risco de falta de energia – qualquer chuvisco pode ser uma tempestade.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.



Por Juliane Furno