Um Brasil segundo Nêgo Bispo – IREE

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Um Brasil segundo Nêgo Bispo

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Qual é o valor de manter viva a sabedoria das grandes mestras e mestres que viveram do sustento da terra, quando assistimos vastos horizontes da Amazônia se tornarem cinzas por causa do fogo? Com a perda de um pedaço de terra, perde-se também todo o conhecimento que havia nela. E aí precisamos refletir por qual motivo o ensinamento ancestral não está sendo ouvido a ponto de corrigir as nossas rotas do presente.

O Brasil reúne na sua estrutura muitas idades históricas, e talvez essa seja a nossa maior riqueza, as mais diversas manifestações étnicas e culturais vindas de diversas partes do mundo, dividindo o mesmo solo. Porém o nosso maior desafio ainda é coexistir. Enquanto as ideias de progresso e as práticas de desenvolvimento estiverem relacionadas a transformar em mercadoria todo e qualquer pedaço da terra, o que se entenderá por justiça serão os arames farpados que dividem um lado do cercado do outro.

Nascido no Vale do Rio Berlengas, município do interior do Piauí, Manoel Bispo dos Santos foi uma dessas manifestações que de tempos em tempos surgem na terra para nos perguntar se o caminho que estamos seguindo é mesmo o melhor caminho.

Nêgo Bispo foi um lavrador, filósofo e quilombola piauiense que defendeu até o último momento o modo de vida calcado nos saberes das comunidades autossuficientes, que valorizam as formas mais ancestrais de vida do povo. Na coexistência do homem com o seu meio mais orgânico estaria o coração daquilo que Bispo chamou de “Contracolonização”.

Defensor ardoroso da natureza e dos direitos da terra quilombola, assistiu quando criança o avanço da regularização de terras sob determinação do Estado, e ante toda a documentação apresentada que só fazia diminuir o espaço onde vivia sua comunidade, foi para a escola e até à oitava série aprendeu o suficiente para ler e ensinar aos seus camaradas tudo o que estava escrito naqueles papéis do governo da época.

Era de ouvidos atentos em um rádio da cidade, que informava e discutia com sua comunidade toda a movimentação captada a respeito da promulgação da Constituição de 1988. Com o tempo fazendo o seu papel quanto a vocação para a política, chegou a ocupar o cargo de presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Francinópolis, e em seguida, dada a boa atuação reconhecida, passa a integrar a diretoria da FETAG (Federação dos trabalhadores na agricultura). Não encontrando na instituição apoio às necessidades do seu povo, renuncia ao cargo de Diretor e passa a se dedicar exclusivamente à luta quilombola.

Uma vez em uma de suas falas, Nêgo Bispo comentou que a colonização – não aquela resenhada nos livros de história, mas a colonização do pensamento único, do interesse de poucos sobrepondo-se ao que a maioria deseja para si – é acharmos comum termos por vezes o remédio que não nos cura, podendo até nos adoecer mais, e negarmos todo e qualquer procedimento curativo que venha dos terreiros do candomblé e da umbanda, das comunidades indígenas, ou da sabedoria e da fé dos mais velhos. Os saberes não podem negar-se uns aos outros, precisam confluir. Uma sociedade que coloca suas crianças na creche e seus velhos em asilos, parafraseando o filósofo quilombola, perde a oportunidade de se complementar com essas duas pontas extremas da vida, o lavrar a terra, o semear, o plantar, e o colher da terra.

Mostrando-se como um dos mais notáveis intelectuais quilombolas da atualidade, publicou os livros “Quilombos, modos e significados” de 2007; “Colonização, Quilombos: modos e significações” de 2015; e “A terra dá, a terra quer” de 2023. Além de artigos lançados em instituições abertas ao diálogo propositivo sobre os efeitos das condições sociais sobre o clima e a natureza.

De uma certa maneira, a proposta para um modo de se viver mais seguro e saudável e que beneficie o próprio mundo, já existe. E os exemplos estão espalhados pelos mais diversos lugares onde se vê de pé laços firmados pelo apoio e cuidado entre as pessoas, e das pessoas com todo o ambiente à sua volta.

A educação pela ancestralidade não significa trazer o passado para ser ensinado de maneira estabelecida como verdade única. O significado do saber ancestral nos convida a ponderar se formas mais simples de vida, e que por décadas resistiram a condições muito menos favoráveis de se existir no mundo, não podem hoje servir de ponte para olharmos com muito mais atenção um futuro que nos oferece menos recursos naturais que antes, e que precisa urgentemente decidir entre a confluência entre suas camadas sociais e comunidades, ou o esgotamento total de vida digna neste planeta.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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