Turbulências no caminho das Reformas de Bolsonaro – IREE

IREE - Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa

Colunistas

Turbulências no caminho das Reformas de Bolsonaro

Carolina de Paula

Carolina de Paula
Cientista Política



Em maio, o governo Bolsonaro enfrentou turbulências e passou por seu pior momento até agora. Pesquisas mostraram a persistência da tendência de queda na aprovação do governo junto à opinião pública.

Assistimos ainda uma primeira e expressiva manifestação que levou milhares de brasileiros às ruas no dia 15 de maio. Os protestos foram contra os significativos cortes na Educação, anunciado dias antes dos protestos pelo ministro da pasta, Abraham Weintraub.

Queda na aprovação

Duas pesquisas de opinião da XP Investimentos mostram que cresceu a desaprovação do governo Bolsonaro.  A primeira, um levantamento feito em todo território nacional dos dias 6 a 8 de maio, aponta que 31% dos entrevistados avaliavam o governo como “ruim ou péssimo”. Em janeiro, o percentual era de 20%.

Já a avaliação positiva, “ótimo ou bom”, que era de 40% no primeiro mês da gestão, passou para 35%.

A segunda pesquisa, também da XP Investimentos, é muito sintomática da turbulência de maio para o Executivo nacional porque foi realizada somente com agentes do mercado financeiro, entre 22 e 24 de maio.

Embora a pesquisa não tenha uma amostra nacional, ela é relevante por mostrar uma dura queda de confiança do mercado na Presidência. Agentes do mercado financeiro encamparam Bolsonaro no segundo turno das eleições e contribuíram de certa forma para a sua vitória.

Passados cinco meses de gestão, a relação esfriou. Em janeiro, apenas 1% dos entrevistados desse target avaliavam o governo como “ruim ou péssimo”. Em maio o salto foi enorme e atingiu 43%. Já a avaliação positiva, que atingia confortáveis 86%, chegou a 14%.

Turbulências com o Congresso

Se vimos turbulência na opinião pública, a relação com o Congresso também não ofereceu refresco para o Planalto. O calendário da tramitação da PEC da Reforma da Previdência segue razoavelmente em dia, mas a relação com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), permanece no constante jogo do morde e assopra.

Ao palestrar em Nova York durante um encontro de investidores e empresários em 14 de maio, Maia afirmou que ainda não existe, por parte do Executivo, uma agenda clara para sobrepor às políticas da gestão do PT, e que somente a aprovação da Reforma da Previdência não garantirá os problemas de desemprego e crescimento econômico.

Seria esperado que o Executivo reagisse às turbulências com articulação e parcimônia. Porém, a reação foi oposta. No que se refere aos manifestantes dos atos do dia 15 de maio, majoritariamente estudantes, Bolsonaro declarou que se tratava apenas de “idiotas úteis” a serviço da esquerda.

Já no que diz respeito aos atritos, mesmo que velados, com o Legislativo, o presidente não hesitou em apoiar publicamente por meio de diversos tuítes elogiosos as manifestações favoráveis ao governo que aconteceram no domingo, dia 26 de maio.

Mais lenha na fogueira

Os atos pró-governo tiveram como mote a defesa dos principais projetos do Executivo: o pacote anticrime do ministro da Justiça Sergio Moro e a PEC da Reforma da Previdência, encabeçada pelo ministro da Economia Paulo Guedes.

Entretanto, o ódio dos apoiadores bolsonaristas respingou, e muito,  no presidente da Câmara dos Deputados, que teve um boneco inflável ridicularizando sua imagem e foi alvo de palavras e cartazes ofensivos.

O endosso do presidente às manifestações poderá complicar a já fragilizada articulação com o principal responsável pela agenda da Reforma da Previdência.



Carolina de Paula

É doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ, Diretora Executiva do DataIESP e pesquisadora sênior do NECON (Núcleo de Estudos Sobre o Congresso). Foi consultora da UNESCO, coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, com atuação em campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Escreve mensalmente para o IREE.

Leia também