Territórios, marco silencioso na história da música de concerto – IREE

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Territórios, marco silencioso na história da música de concerto

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Alguns artistas, independentemente de sua vontade, sempre irão refletir aspectos essenciais do seu tempo, impregnando assim na sua personalidade e na sua música, significados que ultrapassam os limites do seu próprio fazer artístico: é como se a arte fosse o galo da manhã que, cantando, desperta e abre os olhos do mundo para os interesses mais humanos de sua época.

Como na música, assim na vida! Diz o ditado que, de um ponto de vista, traduz bastante alguns fatos da nossa violonista. Ao menos no Brasil, para ser musicista, é necessário a pessoa sonhar. E foi assim, com uma vassoura nas mãos, sonhando em tocar o violão que via todo dia pendurado na parede, que uma criança moradora da cidade de Cerquilho, interior de São Paulo, anos mais tarde tornou-se uma das maiores violonistas intérpretes da música de concerto desse início de século.

Em 8 de novembro de 2023, Gabriele Leite, violonista brasileira radicada em Nova York, lança seu Álbum Territórios, um marco silencioso na história de nossa música de concerto. O álbum em sua composição apresenta uma diversidade de territórios percorridos dentro do universo musical de concerto e traz uma marca pessoal profunda dos estudos de música contemporânea na interpretação da artista.

A estética do álbum simboliza os seus territórios habitados na estrada da formação artística, cada música do repertório significando um reencontro com seu próprio caminho percorrido. O álbum faz um regresso do momento atual da artista até o seu início no violão, assim de forma descendente, como um álbum de memórias ou fotografias. As Cinco Bagatelas, por exemplo, foram as primeiras peças que começou a aprender ao chegar em Nova York para ingresso no mestrado na Manhattan School of Music em 2022; já o interesse pela Ritmata de Edino Krieger, foi despertado quando da sua saída do interior à capital paulistana para estudar o bacharelado em violão pela UNESP em 2017; interpretar as Sonata´s de Sérgio Assad era um sonho antigo de Gabriele, que após anos de dedicação, pôde levar a obra ao palco do recital que homenageou o compositor em Nova York, no ano de 2022; por fim, Melodia Sentimental de Heitor Villa-Lobos remonta às primeiras fascinações da artista ao chegar no Conservatório de Tatuí, quando ela ainda contava 11 anos de idade.

Iniciando magistralmente pelas Cinco Bagatelas de Willian Walton, a violonista passa pela percussividade e vanguardismo da Ritmata de Edino Krieger; pelas três Sonata´s do consagrado compositor e violonista Sérgio Assad, e encerra no auge do álbum (ou seja, naquele sentimento de “quero mais”) com Melodia Sentimental do maestro Heitor Villa-Lobos, música que não foi originalmente composta para violão, mas que ganhou arranjo do grande violonista Carlos Barbosa Lima (1944-2022) e posterior edição de Edson Lopes.

Em 2021 recebe convite de Silvio Fraga para que seu primeiro álbum seja gravado pela Rocinante. E tempos depois, inicia o trabalho de preparo para as gravações sob a direção artística de seu mentor e imenso violonista, João Luiz. Este, integrante negro do Brasil Guitar Duo, parceria com Douglas Lora, que talvez seja o primeiro duo de violões interracial dedicado ao concerto. Em Nova York, Gabriele Leite e Eduardo Gutterres, um dos mais notáveis encontros da música na contemporaneidade, inspirando colegas, novas e novos violonistas e artistas consagrados da música brasileira e internacional, integram mais um raro duo com essa característica de cor.

As relações raciais no meio musical de concerto estruturam de tal forma a permanência das desigualdades que, de uma maneira geral, poucas pessoas negras são elevadas do convés para a proa dos grandes espetáculos e salões onde se cultua a música instrumental de raiz europeia. O violão, que mesmo hoje sendo mais respeitado pela qualidade crescente do seu repertório e de seus intérpretes, ainda sofre preconceito por parte das orquestras.

Quais os motivos da ausência profunda de pessoas negras no público e nos palcos das salas de concerto? Os motivos sempre são diversos, mas certamente não apenas pessoas negras, mas grande parte do povo brasileiro nunca se enxergou nesses palcos. Não viam ali o rosto dos seus iguais. Após a ascensão de Gabriele Leite, diante a sua qualidade artística, a sua história e o seu modo de ser, muita gente bateu o pó daquele violão que estava guardado há muitos anos e voltou a estudar, muita gente pegou a primeira vez em um violão e sonha um dia tocar como a Gabriele. Em seus concertos no Brasil, o público cada vez mais tem a cara do povo. O recado está dado: é preciso conquistar Territórios.



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Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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