Surfando na moral e na antipolítica, Sergio Moro é a segunda via – IREE

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Surfando na moral e na antipolítica, Sergio Moro é a segunda via

Yuri Silva

Yuri Silva
Coordenador de Direitos Humanos do IREE



O ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro nem bem consolidou sua volta ao Brasil e o lançamento da sua candidatura à Presidência da República pelo Podemos, opção que era ventilada como uma alternativa da terceira via para a disputa das eleições de 2022, e já caminha para se tornar não a terceira, mas a segunda via no processo eleitoral do próximo ano.

Sempre foi de conhecimento geral o fato de este tratar-se de um pleito de relevância especial, devido a todos os elementos que estarão em jogo, sobretudo a defesa da democracia e das instituições diante dos arroubos autoritários do presidente Jair Bolsonaro.

Contudo, o que ninguém apontava como provável – e que as análises mais atentas dão como quase certo neste cenário – era que uma polarização entre a defesa dos mecanismos de combate à corrupção e as irregularidades praticadas por juízes e procuradores tomaria a frente na pauta, em termos de importância e prioridade, superando inclusive os medos provocados pelos discursos milicianos de Bolsonaro.

O desempenho entre 10% e 11% de Moro na pesquisa, aparentemente consolidado e com possibilidade de crescimento, nos transporta para as eleições de 2018, quando o presidente Lula, inelegível por conta das condenações da Lava Jato, entrou em campo sub-judice, mas teve que ser substituído logo depois pelo seu apadrinhado político, Fernando Haddad, levando adiante o discurso de que houvera sido vítima de um juiz parcial e comprometido.

No entanto, a reedição das eleições de quatro atrás terá, em 2022, outra composição e outras narrativas a serem disputadas. A primeira delas já está em jogo: ao considerar que o jogador do PT agora é outro, o próprio presidente Lula, está em curso uma batalha entre Moro e Bolsonaro pela posição do discurso mais capaz de derrotar o lulismo.

Moído pela crise que embalou em seus braços, Bolsonaro sai atrás. Embora entrincheirado pela máquina do Governo Federal e a farra das emendas, o presidente perde cada vez mais espaço para uma terceira via que vai se  convertendo, aos poucos, em segunda. O precipício enfrentado pelo governo hoje inclui, ainda, o desemprego, a volta da fome, a falta de apoio da população que viu sua condição de vida piorar e perdeu amigos e parentes para a Covid-19, a desconfiança do empresariado da Avenida Faria Lima sobre o presidente, sobre sua política econômica e principal sobre a ala ideológica, além de um futuro abandono do Centrão ao governo – movimento que Bolsonaro até tenta conter indo para o PL, mas ocorrerá em algum tempo, mais cedo ou mais tarde.

Enquanto isso, do outro lado, o legado que Sergio Moro ainda acumula da Operação Lava Jato, mesmo após questionamentos sofridos por integrar o governo Bolsonaro e por julgar réus de forma direcionada e politizada, e a ausência de opções viáveis diante da polarização entre o ex-presidente Lula e o atual mandatário do Palácio do Planalto soma-se à predileção do povo brasileiro por discursos morais e éticos na política para catapultar Moro nas urnas.

Das opções de terceira via, Moro destaca-se com força justamente por unir esses elementos tão enraizados na sociedade brasileira, deixando João Dória (envolto na crise tucana) e Ciro Gomes (apesar do trabalho assinado pelo gênio João Santana) atrás na corrida pelo Planalto. 

A base da popularidade do ex-juiz é essencialmente o sentimento antipolítica nutrido na sociedade brasileira – tendo Bolsonaro como um dos vetores principais – e que a força-tarefa da Lava Jato, liderada por ele, ajudou a alimentar entre 2014 e 2021. É um movimento capaz de unir setores populares com uma classe média moralista, numa equação que permite ao ex-magistrado uma penetração social singular.

Esse fenômeno é produto de sete anos de preparação, período em que o ex-juiz trabalhou não pelo combate à corrupção, mas em uma extensa campanha eleitoral – incomum, porém programada – que desembocará em 2022. A adoção do lawfare como prática política significou não só uma debacle histórica para o ex-presidente Lula, mas principalmente a alçada de Moro, Deltan Dallagnol e seus asseclas do Partido da Lava Jato aos holofotes eleitorais e ao conhecimento de vários grupos sociais distintos.

Mais uma vez, um outsider da política se destaca, o que já mostrou-se, no Brasil ou nos EUA, um erro histórico. Apesar disso, não é impossível que ele se repita, como tragédia ou como farsa. Há quem duvide dessa hipótese e conteste a própria tese deste artigo, dizendo que o ex-ministro Sergio Moro não vai decolar. Mas parece, para mim, que essas análises aproximam-se muito mais de desejos pessoais dos seus elaboradores do que da realidade.

Sergio Moro não só caminha para ser a segunda via, como também empunhará um forte discurso anti-corrupção e rico em moralismo para enfrentar o ex-presidente Lula no segundo turno – tática que parece ter eco ainda.

Já Lula deve repetir a narrativa de 2018, a do perseguido político, ao mesmo tempo em que tenta apresentar-se como uma novidade e levar à população saídas para a crise. Esperamos que seja suficiente. Tenho sérias dúvidas se será.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Yuri Silva

É Coordenador de Direitos Humanos do IREE. Jornalista formado pelo Centro Universitário Jorge Amado, é coordenador nacional do Coletivo de Entidades Negras (CEN), editor-chefe do portal Mídia 4P – Carta Capital, e consultor na área de comunicação, política e eleições. Colaborou com veículos como o jornal Estadão, o site The Intercept Brasil, a revista Piauí e jornal A Tarde, de Salvador. Especializou-se na cobertura dos poderes Executivo e Legislativo e em pautas relacionadas à questão racial na sociedade de forma geral e na política. É Membro do Diretório Estadual do PSOL de São Paulo.

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