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Entrevistas

Suhayla Khalil: Chances de impeachment de Trump são baixas

Por Samantha Maia

As chances de impeachment de Donald Trump são baixas, mas todo o processo que envolve o fim do mandato do republicano tem grande impacto na política americana e na democracia ocidental como um todo, analisa a especialista em Relações Internacionais Suhayla Khalil.

“Cada vez mais temos que olhar para as instituições democráticas ocidentais e entender o que está acontecendo, fazer um diagnóstico para compreender por que essas instituições não têm servido para lastrear o processo político, por que figuras como o Trump surgem, e isso de fato não é algo menor”, diz Suhayla Khalil.

No dia 20 de janeiro de 2021, o democrata Joe Biden tomou posse como o 46º Presidente dos Estados Unidos. O ato marcou o fim dos conturbados quatro anos de governo do republicano Donald Trump e o início de um mandato com grandes desafios a serem enfrentados por Biden, como uma grave crise econômica e uma pandemia que até então já havia matado mais de 400 mil pessoas no país.

Trump não compareceu à posse de seu sucessor, o que não acontecia nos Estados Unidos há 152 anos. O gesto está alinhado à recusa do republicano em reconhecer totalmente a derrota diante de uma falsa tese de que as eleições foram fraudadas.

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Trump enfrenta um processo de impeachment, acusado de insuflar uma insurreição contra o novo governo, que culminou na invasão do Capitólio por extremistas norte-americanos no dia em que os congressistas faziam uma sessão que formalizaria Joe Biden como presidente eleito.

No dia 13 de janeiro, faltando uma semana para o fim do mandato de Trump, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou este que é o segundo processo de impeachment contra o agora ex-presidente, um fato inédito nos Estados Unidos. O processo seguiu para o Senado para julgamento.

Em entrevista para o IREE, Suhayla Khalil falou sobre o recente cenário político norte-americano e sobre as possíveis repercussões para o Brasil.

Khalil é professora da pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e também participa do curso Brasil e EUA: Entre Submissão e Fratura, do IREE Escola-KOPE, no qual dá uma aula sobre as relações entre os dois países durante o período de Getúlio Vargas.

Confira a seguir a entrevista completa

Quais são as chances para o impeachment de Donald Trump? 

Suhayla Khalil: Na minha visão, as chances de aprovação são baixas. Apesar do processo ter avançado de forma rápida na Câmara dos Deputados, o que é inédito, pois Trump é o primeiro presidente dos Estados Unidos a sofrer dois processos de impeachment, ainda não é muito claro qual vai ser o desdobramento.

Tudo indica que é muito mais difícil que seja aprovado no Senado, mesmo que 10 deputados republicanos tenham votado a favor do impeachment, o que foi um recorde. E além disso, tem uma outra incógnita ainda não respondida que é se o processo pode seguir uma vez que o Trump já deixou o cargo. Isso coloca o resultado desse processo ainda mais em xeque.

 

Como avalia esse momento da política norte-americana, de derrota do Trump, questionamento das eleições e processo de impeachment? 

Suhayla Khalil: É importante trazer o pano de fundo para entender a importância do que está acontecendo. Os Estados Unidos sempre foram um modelo de democracia, e estamos em meio a uma crise democrática. Então é claro que quando se olha para lá e se vê, não só o processo de impeachment, mas uma liderança política que questiona os valores democráticos e as instituições, isso gera um desdobramento negativo imediato na sociedade.

Cada vez mais temos que olhar para as instituições democráticas ocidentais e entender o que está acontecendo, fazer um diagnóstico claro para que a comunidade internacional, os países, os movimentos sociais, a sociedade civil possam compreender por que essas instituições não têm servido para lastrear o processo político, por que figuras como o Trump surgem, e isso de fato não é algo menor. Da mesma forma que são estudados os processos que levaram à ascensão de regimes autoritários nos anos 1930.

 

Quais os impactos desse processo para o Partido Republicado e para Trump?

Suhayla Khalil: Trump é uma figura que acabou se sobrepondo ao Partido Republicano e que deixa efeitos danosos, de recordes negativos para o partido, como ser o primeiro presidente a sofrer dois processos de impeachment. Além disso, o Partido Republicano está rachado, há políticos que abandonaram Trump e outros que ainda o defendem. Vamos ver como o partido vai se recuperar para as próximas eleições.

Já no caso de Trump, não acho que vá sofrer tanto com esse processo, porque ele segue uma linha muito negacionista voltada para um público específico, e nisso ele se parece muito com o Bolsonaro, de criminalização da imprensa, de dizer que há um complô contra ele. É provável que tenha perdido uma parcela do eleitorado, mas ele segue tendo um apoio muito forte, os movimentos em Washington mostram isso. Mas se o impeachment acontecer, aí sim estamos falando de um efeito substancial que será perder o direito de se candidatar novamente.

 

O enfraquecimento de Trump tem efeitos sobre o governo Bolsonaro? 

Suhayla Khalil: Existe uma certa percepção histórica de que o enfraquecimento de Trump levará a um enfraquecimento de grupos análogos, que pensam de forma próxima a ele, em outras partes do mundo, como é o caso de Jair Bolsonaro. É um efeito sobre o conjunto de ideias ligado a esses grupos, não uma correlação direta de acontecimentos.

Então o enfraquecimento do Trump causa sim um enfraquecimento do bolsonarismo, ainda que de forma indireta. Agora, para pensar se isso tem efeito sobre a reeleição de Bolsonaro ou sobre um possível processo de impeachment contra o presidente brasileiro, a relação não é tão simples de ser feita, é mais importante olhar para questões internas do Brasil, entender o jogo político nacional.

 

Como avalia os resultados para o Brasil da relação de Bolsonaro com Trump nos últimos dois anos? 

Suhayla Khalil: A meu ver, o Brasil não ganhou com a relação personalista de Bolsonaro com Trump. Governos muito alinhados a grandes potências tendem a não atingir resultados de acordo com o seu interesse nacional. Mesmo no que parecia importante para o governo Bolsonaro, como a entrada na OCDE e os acordos de cooperação militar, não houve grandes concretizações.

Além disso, tivemos desdobramentos negativos para a imagem do Brasil por se alinhar aos Estados Unidos em pautas contrárias aos direitos humanos, que isolaram o Brasil no sistema internacional. O uso da política externa com carga ideológica extremamente forte dá a impressão de que Bolsonaro age para agradar o seu eleitorado fiel, mas quando esbarra em questões mais estratégicas, como o interesse do agronegócio com a China, ele tende a recuar e outros atores entram em cena, como a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o vice-presidente, Hamilton Mourão.

 

E o que esperar da relação entre Biden e Bolsonaro?

Suhayla Khalil: Tudo indica que vamos ter um período de dificuldades nas relações bilaterais, mas não de ruptura. A história das relações entre Brasil e Estados Unidos mostra que nunca houve rompimento, mesmo o Brasil tendo um processo histórico instável, de muitas mudanças políticas internas.

Terão sim mais cobranças dos Estados Unidos em relação ao Brasil, principalmente em relação às pautas de meio ambiente e de direitos humanos. Esses dois pontos são o calcanhar de Aquiles do governo Bolsonaro, um governo notoriamente negacionista, que defende um projeto de desenvolvimento predatório que não está em convergência com o debate de desenvolvimento sustentável de meio ambiente do século 21.

Outra razão para esperar uma tendência de desentendimentos entre Biden e governo brasileiro é que Bolsonaro reforçou o seu apoio a Trump nas eleições, um erro estratégico, e o esperado agora seria uma moderação no discurso, o que até o momento não aconteceu.



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