14 de julho de 2025
Os sonhos são nossa singularidade mais funda, nossa densidade e complexidade. Sonhos são a outra lógica, a do inconsciente, que Sigmund Freud nos transmitiu, abrindo o caminho a outro mundo, íntimo e enigmático. A audácia de Freud foi tratar os sonhos como uma linguagem, uma escritura, fazendo deles a via régia do inconsciente.
Aqui é importante pensar o sonho também na esteira de um caminho que se faz coletivamente. Em “Sonho manifesto”, o pesquisador e neurocientista Sidarta Ribeiro nos convoca a sonhar coletivamente, a fim de resgatar algo precioso de nossa ancestralidade. O livro cita dezenas de histórias de griôs, mestres de capoeira, babalorixás, xamãs e pajés de povos originários, além de dados sobre pesquisas e relatos das mais diversas tradições, como budismo e taoísmo, tudo costurado a partir de uma ética do sonho como elemento central e vivificante da existência.
No ano passado comemoramos os cem anos do Manifesto Surrealista, lançado por André Breton, que olhou para o mundo dos sonhos e pensou a potência criativa daí oriunda. A singularidade do surrealismo no continente latino-americano reverbera agora em “Sonhos ao sol – miragens da arte na América Latina”, um registro fundamental que reúne cerca de 140 artistas latino-americanos e caribenhos. Revisitando a dimensão do inconsciente a partir de aspectos próprios ao trabalho de cada artista, a linda publicação da Act Editora abre discussões sobre a magia, o surreal, o onírico. A partir do sonho, cosmogonias e cosmologias irradiam possibilidades outras de vida.
Freud assinalou que “a interpretação dos sonhos é, na realidade, a via régia para o conhecimento do inconsciente, o mais seguro alicerce da psicanálise”. Por esse caminho aberto, o ensaio de Fernando Ticoulat adentra um mundo diverso e prenhe de relações com a psicanálise e, também, com o complexo território latino-americano com seus mitos, abismos e figurações: “A América Latina é um termo curioso. Mais do que um território geográfico, a consideramos um estado de espírito, um palimpsesto cultural em permanente atualização”.
À maneira psicanalítica, “Sonhos ao sol” apresenta e sustenta um panorama latino-americano – diversidade, liberdade, imaginação e narrativas que desafiam o lugar comum e apontam para o maravilhoso, ao espantoso e ao extraordinário – e uma produção artística muito atravessada pela força do sonho, do desejo e das miragens do absurdo. Para revelar o abissal que vive nos sonhos, os artistas partem de premissas diversas. De Leonora Carrington a Maria Martins, Samico e jovens artistas como Fernanda Feher e Rayana Rayo. Ainda, dentre outros, Claudia Andujar, Denilson Baniwa, Wifredo Lam, Antonio Obá, Xul Solar, Tunga e Remedios Varo, em celebração de uma riqueza criativa em constante reinvenção, exploram pontos distintos que convergem sob a “lógica do sonho” e dão acesso a um horizonte misterioso e trêmulo onde tudo está ainda por se inventar. São miradas que nos reenviam ao solo fundamental da psicanálise e revelam as estruturas e os circuitos pulsionais de um saber não-sabido, saber que é uma estrada para o real do inconsciente. Com a arte aprendemos, mais uma vez, algo assinalado por Freud: nos sonhos mais bem interpretados precisamos, muitas vezes, deixar um ponto no escuro, o umbigo do sonho, o ponto em que ele se assenta no desconhecido.
A atualidade dos sonhos possui também um sentido político e coletivo, como aponta a antropóloga Hanna Limulja: “O sonho é essa dimensão, esse espaço-tempo que funciona como uma fita de Moebius: presente, passado e futuro se misturam. Por isso que o tempo do sonho se relaciona com o tempo do mito, porque é algo que aconteceu, mas está acontecendo e vai acontecer”. Como propõe Hanna, se pudéssemos reaprender a sonhar com os yanomamis, talvez pudéssemos reaprender também uma realidade mais justa, humana e diversa.
Impossível não resgatar aqui a dimensão do sonho que se pode escrever na realidade como utopia política. Se chegamos ao esgotamento da injustiça social, agora se inscrevem, no seio de uma decisão política, outros possíveis mundos e formas de distribuição de renda, com a invenção de um novo regime em que todos possam ser sujeitos políticos e emergir como sujeitos do desejo. O abismo social negou a muitos o direito ao sonho, agora exigido como subversão necessária não só para o básico, mas também para o extraordinário. Na distribuição das miragens políticas, juntos sonhamos e, no sonho, incluímos hipóteses inéditas de futuro e realidade.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Bianca Coutinho Dias
É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).
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