Se o nazismo voltasse, nós reconheceríamos? – IREE

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Se o nazismo voltasse, nós reconheceríamos?

14 de setembro de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Tem uma frase que ando repetindo pra mim mesma desde que vi o resultado da eleição na Saxônia-Anhalt, no último dia 6. Se o nazismo voltasse, será que eu reconheceria? Não é uma pergunta retórica, nem esse tipo de provocação que a gente faz numa mesa de bar pra parecer mais atenta ao mundo do que realmente está. É a primeira vez em muito tempo que essa dúvida me pareceu séria.

Não falo de uma repetição literal do Terceiro Reich, com suásticas, comícios e 1933. O nazismo nasceu de circunstâncias específicas e produziu uma experiência particular de totalitarismo, racismo de Estado e extermínio que não volta igual, porque nada volta igual. O problema é outro. Aprendemos a reconhecer o nazismo tão bem pela forma que ele teve uma vez que corremos o risco de só saber apontar o dedo pro passado, enquanto o presente se organiza de um jeito que os nossos olhos treinados não foram ensinados a ler.

No dia 6, a AfD venceu a eleição estadual na Saxônia-Anhalt com 43,8% dos votos e conquistou 39 das 83 cadeiras do parlamento, ficando a três deputados da maioria absoluta. A conservadora CDU, que governa a região há mais de duas décadas, caiu para 17,2%. Em 2021, a AfD tinha 20,8% dos votos ali. Mais que dobrou em cinco anos. E o resultado local não é um acidente isolado. A AfD aparece hoje com 28% em pesquisa nacional recente, contra 20% da CDU/CSU, treze anos depois de ter sido fundada como uma sigla anti-euro de economistas insatisfeitos que nem sequer tinha a imigração como questão central. Os outros grandes partidos ainda mantêm entre si o que chamam de firewall, a recusa de formar coalizões com a AfD. É a barreira que resta.

Foi também nesses dias que uma amiga me mostrou um vídeo que me deixou genuinamente assustada. Não havia nele nenhuma grande revelação, e talvez tenha sido justamente isso que me perturbou. Eram falas, gestos e ideias da extrema direita que fomos aprendendo a receber como provocação, exagero, estratégia eleitoral, liberdade de expressão, piada de mau gosto, qualquer coisa que permita seguir adiante sem encarar exatamente o que está diante de nós.

Vendo tudo junto, fiquei pensando se não estamos fazendo uma coisa ainda mais perigosa do que esquecer a história. Estamos relativizando aquilo que a história já havia tornado intolerável.

Em março de 1933, pouco mais de um mês depois de Hitler ser nomeado chanceler por Hindenburg e dias depois do incêndio do Reichstag servir de justificativa para um decreto de emergência que suspendeu liberdades civis fundamentais, o Partido Nazista obteve 43,9% dos votos nas eleições parlamentares, percentual quase idêntico ao das eleições desse ano. Não escrevo isso para sugerir que a história tem um número mágico que se repete. Seria uma leitura supersticiosa e preguiçosa, o tipo de comparação que devolve pouco e distorce muito, então, apesar da coincidência, prefiro me apegar aos fatos sequentes.

A Lei de Plenos Poderes, que permitiu ao governo legislar sem o Parlamento e se tornou uma das bases jurídicas da ditadura, foi aprovada poucos dias depois, em 23 de março, sob uma enorme estrutura de intimidação. Os 81 deputados comunistas não participaram da votação porque seus mandatos haviam sido anulados e muitos já estavam presos, escondidos ou no exílio. Deputados social-democratas também haviam sido presos ou impedidos de comparecer. A votação aconteceu cercada pela presença e pela violência política da SA e da SS. Ainda assim, decreto, votação, lei e publicação continuavam dando ao processo uma aparência jurídica. Isso é o que uma formação em Direito ensina a enxergar com desconforto. O autoritarismo nem sempre começa rasgando a lei. Às vezes ele aprende a manejá-la enquanto destrói, por dentro, as condições que faziam daquela lei parte de uma democracia.

Por muito tempo acreditei que uma sociedade que conhecesse a própria barbárie em detalhe estaria protegida contra repeti-la. Poucos países fizeram da memória um exercício tão disciplinado quanto a Alemanha, com o Holocausto ensinado nas escolas, gravado nos museus, inscrito nas leis. Hoje suspeito que dei à memória um poder que ela nunca teve. Conhecer o passado é indispensável e insuficiente ao mesmo tempo, isso não é contradição, é apenas o tamanho real da coisa.

Sabemos com precisão de arquivo onde aquela história terminou, no assassinato de seis milhões de judeus europeus e de milhões de outras vítimas do regime nazista. O que essa precisão às vezes nos rouba é a paciência de olhar para o que veio antes do fim, a crise econômica, o inimigo interno construído aos poucos, o limite do dizível recuando centímetro por centímetro até que ninguém mais lembrasse onde ele estivera. Elites convencidas de que saberiam domar os radicais e gente comum que aceitou pequenas exclusões antes que elas se tornassem grandes demais para serem ignoradas.

Nada disso faz da Alemanha de 2026 a Alemanha de 1933, nem da AfD uma reencarnação do Partido Nazista com roupa nova. Chamar qualquer adversário de nazista ou fascista é gastar essas palavras justamente na hora em que mais precisamos delas afiadas. Mas esse mesmo cuidado histórico, se levado longe demais, pode produzir uma armadilha curiosa. Passamos a exigir tantas condições para reconhecer um processo autoritário que só estaremos autorizados a chamá-lo pelo nome quando ele já tiver reproduzido tudo aquilo que aprendemos nos livros.

E não é só um problema alemão. Escrever isso me forçou a olhar para a própria cegueira, que é sempre o exercício mais desconfortável e o mais necessário. Minha atenção nos últimos meses esteve tomada pela tragédia palestina, pela violência contra uma população civil que continuo considerando impossível de relativizar. Demorei a perceber que, no mesmo intervalo de tempo, o antissemitismo crescia em outro andar da mesma casa, inclusive aqui no Brasil.

Foi uma amiga judia que comentou de passagem que parou de usar um colar com a Estrela de Davi no transporte público. As denúncias de antissemitismo no Brasil chegaram a 1.788 em 2024. Em 2025 caíram para 989 e, ainda assim, permaneceram 149% acima das 397 registradas em 2022. A queda, portanto, não significou uma volta ao patamar anterior. Criticar o governo de Israel e defender os direitos palestinos não é antissemitismo. Combater o antissemitismo não exige silêncio diante do sofrimento em Gaza. Nenhum judeu responde pelo Estado de Israel por ser judeu, nenhum palestino responde pelo Hamas por ser palestino, e reduzir qualquer um dos dois a essa conta é a mesma preguiça intelectual vestida com bandeiras diferentes. Minha falha não foi de princípio. Foi de atenção, e atenção, hoje, também é posição política.

É fácil reconhecer o preconceito no campo que já rejeitamos, isso não exige nenhum esforço moral, só confirma o que a gente já queria pensar. A dificuldade real aparece quando a exceção favorece a nossa causa, quando a violência vem embrulhada numa justificativa que soa razoável demais para ser questionada. Somos rápidos para nomear a contradição do adversário e generosos, quase maternais, ao explicar a nossa própria. Se quero discutir por que uma sociedade deixa de reconhecer processos perigosos quando eles mudam de roupa, preciso admitir primeiro que essa cegueira seletiva também é minha, e provavelmente é nossa.

Uma pesquisa da Fundação Friedrich Ebert realizada com jovens brasileiros de 15 a 29 anos encontrou 18% de identificação com a esquerda e 38% com a direita, sendo 17% com a extrema direita. Não é só a Alemanha oriental migrando em massa pra AfD. Há uma transformação política geracional acontecendo também no meu próprio país.

Existe ainda uma diferença estrutural, e não só moral, entre o mundo que produziu os totalitarismos do século vinte e o nosso. Aqueles regimes precisavam de rádio, cinema e praça lotada para fazer milhões de pessoas engolirem a mesma narrativa. A propaganda de hoje não precisa de unanimidade nenhuma. Ela pega gente com medos diferentes, interesses diferentes, feridas diferentes, e leva todo mundo pela mão até a mesma conclusão política, cada um por um caminho particular.

As plataformas sabem o que prende nossa atenção, o que nos irrita, o que nos deixa uma hora a mais na tela, e um sistema desenhado para vender atenção vai sempre preferir o conteúdo que produz reação, porque medo e raiva rendem mais clique que qualquer argumento equilibrado. A inteligência artificial não tem ideologia, mas multiplica escala, e ressentimento com escala suficiente já foi, em outros séculos, o suficiente para incendiar um continente, literalmente, um prédio de parlamento por vez.

Por isso considero um erro chamar milhões de eleitores de ignorantes ou fascistas e imaginar que a frase encerra a conversa. Demanda legítima não legitima qualquer resposta oferecida a ela, mas quem quer defender a democracia vai ter que disputar também a causa concreta do ressentimento, não só o rótulo de quem o explora. Quando a política deixa de prometer pertencimento e futuro, esse vazio não fica vazio por muito tempo, alguém sempre aparece pra preenchê-lo, e a Saxônia-Anhalt, com sua economia estagnada e sua sensação antiga de ter perdido a reunificação, mostrou isso outra vez.

Interessa mais observar o processo de fascistização do que decidir, ainda no calor da manchete, se um partido já merece ou não o rótulo. Importa notar quem uma sociedade começa a aceitar humilhar, que direito começa a soar privilégio, o momento exato em que um adversário político deixa de precisar apenas perder uma eleição e passa a ser tratado como ilegítimo por simplesmente existir.

Essas mudanças raramente chegam de uma vez, com tanque na rua e parlamento fechado, imagem que a gente adora porque é fácil de reconhecer e fácil de dizer que não é a nossa realidade. As instituições sabem se esvaziar por dentro enquanto seguem de pé por fora, com eleição acontecendo, tribunal funcionando, jornal circulando. Em 1933, a aparência institucional sobreviveu por algum tempo enquanto as condições que davam sentido democrático a essas instituições eram desmontadas uma a uma.

O que mudou em mim não foi a fé na memória histórica, foi a fé de que ela bastaria sozinha. Passamos oitenta anos construindo lei, museu e cultura de memória contra a repetição da última catástrofe, e fizemos isso certo. O erro está em supor que o próximo movimento autoritário vai ter a educação de se parecer com o anterior.

Nunca existiu fascismo com rede social, deepfake e um aparelho no bolso de cada pessoa, capaz de informar, vigiar e propagandear ao mesmo tempo, do café da manhã ao travesseiro. Isso não torna um novo fascismo inevitável, só significa que as ferramentas com que aprendemos a reconhecer o autoritarismo foram fabricadas para um mundo que já não existe mais do jeito que existia.

No fim, este texto me deixou menos preocupada com a nossa capacidade de conhecer a história e mais preocupada com a nossa capacidade de nos reconhecermos dentro dela. Minha demora em perceber o antissemitismo enquanto olhava fixo para a tragédia palestina me obrigou a admitir uma coisa incômoda antes de cobrá-la de qualquer outra pessoa. Memória histórica não serve apenas para reconhecer a violência dos outros. Ela precisa funcionar também quando nos obriga a desconfiar das nossas próprias certezas.

Continuo acreditando no nunca mais. Só não acho mais que ele aconteça sozinho, como consequência automática de sabermos o que já aconteceu uma vez. Ele exige reconhecer o processo antes que ele tenha a aparência confortável do passado, e defender democracia e dignidade humana inclusive, principalmente, quando isso contraria o lado ao qual a gente acredita pertencer.

Reconhecer Hitler retrospectivamente é fácil. O difícil, e o que de fato importa, é reconhecer o momento do mundo que torna possível o aparecimento de alguém como ele.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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