27 de abril de 2026
O livro Sala 4: primeira prisão política feminina narra, a partir das memórias de uma de suas “hóspedes”, as experiências vividas no primeiro cárcere exclusivamente feminino do Brasil, em 1935, sob o governo de Getúlio Vargas (1882–1954). Para além do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália, as mulheres combatentes daquele período preocupavam-se em barrar o crescente avanço dessas ideologias e suas variantes, como o salazarismo em Portugal, o franquismo na Espanha e o integralismo no Brasil.
Maria Moraes Werneck de Castro (1909–1994), advogada e militante comunista, é quem narra para os leitores os episódios ocorridos na Rua Frei Caneca, na cidade do Rio de Janeiro. Desenvolvido ainda nos idos de um Brasil imperial, o local, que antes era uma chácara, foi cedido pelo ministro da Justiça de então, Aureliano de Souza Coutinho, para a fundação do conjunto Casa de Detenção e Casa de Correção, inaugurado em 1835 pelo “criminoso de morte” preto João, que teria sido condenado à prisão perpétua.
O “crime” cometido pelas mulheres que passaram pela Sala 4 foi o de não se curvarem diante das mais nefastas atrocidades que ocorriam a céu aberto, nas ruas e nas dependências das instituições carcerárias brasileiras. Nise da Silveira, Elisa Ewert, Olga Benário, Beatriz Bandeira, Valentina Dias Leite, Eneida Costa de Moraes e a própria autora foram algumas das mulheres que dedicaram suas vidas à construção da democracia em um país que se mostrava totalmente avesso a quaisquer manifestações de cidadania e dignidade para seu povo.
A história da resistência contra as ditaduras que, de tempos em tempos, ressurgem como metástase de um câncer em nossa sociedade muitas vezes deu protagonismo aos homens envolvidos na luta, deixando a contribuição feminina sob a sombra de narrativas épicas de militantes comunistas prestigiados. Até a dor, as torturas e todas as demais calamidades que aconteciam nos porões do regime ditatorial sempre tiveram como personagens do martírio as figuras masculinas do período. Com o livro Sala 4, veremos que os ditadores pouco faziam distinção, quando o assunto era o terror, em relação às suas vítimas.
Pensando em contribuir para a melhoria da condição de vida das mulheres, foi criada a União Feminina Brasileira (UFB), coletivo que, dando prioridade à criação de um departamento médico e jurídico, buscou contribuir para o auxílio de mulheres que não tinham condições de acessar esses serviços. A União durou apenas dois meses, pois foi fechada pelo Estado com a justificativa de se preservar a segurança nacional, acontecendo o mesmo com a Aliança Nacional Libertadora, uma das organizações de esquerda mais destacadas na frente antifascista da época.
As integrantes e organizadoras da UFB, mulheres como Armanda Álvaro Alberto, Eugênia Álvaro Moreyra, Catarina Landsberg, Beatriz Bandeira, Francisca Moura, Maria Werneck, entre outras — e seus nomes devem sempre ser lembrados — estavam atentas, da maneira como podiam, dentro dos limites impostos às mulheres combatentes da época, às movimentações políticas que estavam ocorrendo no mundo. Mais de uma vez, é feita, no livro, referência à carnificina que estava ocorrendo na África, mais detidamente na Etiópia, onde o avanço fascista, liderado pelo conde Galeazzo Ciano (1903–1944), irmão de Benito Mussolini (1883–1945), aquele mesmo que escrevia poesias macabras ao ver os campos repletos de corpos etíopes decapitados, triunfava.
O livro, que vale como um documento valiosíssimo elaborado por uma das principais combatentes de esquerda do período, não narra apenas as condições degradantes a que elas e outros presos foram submetidos. Temos também um brilhante testemunho dos esforços, dos tipos de personalidade e inteligência, das conversas e de gestos que diziam mais que quaisquer palavras sob a vigilância de guardas poderiam dizer. O relato dos dias de convívio e dos últimos momentos com Olga Benário é extremamente tocante e um testemunho vívido de uma aliança vergonhosa da política brasileira com o nazismo.
Os desafios da mulher brasileira, passadas mais de 9 décadas dos episódios que o livro narra, continuam em nossa sociedade. Cresce o encarceramento feminino, assim como aumenta o feminicídio, quase de maneira vertiginosa, dia após dia. Sala 4 deve ser leitura obrigatória para todos aqueles que desejam fazer parte das transformações urgentes que o Brasil precisa encarar. Quanto a isso, temos urgência.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Diego Jandira
É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.
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