Resgatar o gesto crítico diante de uma política de morte – IREE

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Resgatar o gesto crítico diante de uma política de morte

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



Em “Totem e Tabu” Freud ensina que a violência está na base do laço social. A própria noção de contrato social supõe alguma violência, pois seu princípio é de uma ordem universalizante. Mas há nuances muito distintas de violência: aquela em que se viola uma ordem estabelecida, seja da natureza ou da civilização, ou a da própria linguagem sobre o vivente que, ao nascer, encontra o Outro do discurso.

Lidar com essa dimensão estruturante da violência constitui um importante gesto crítico que nos previne ao empuxo imaginário daqueles que pensam carregar um bem maior regido por regras morais próprias. Se a psicanálise pode se colocar em diálogo com a política, é justamente nesse ponto de inflexão em que cada sujeito precisa lidar, simbolicamente, com suas fantasias destrutivas.

Vivemos a repetição de violências e brutalidades que sempre encontraram solo fértil no país. O prazer de matar era evidente, por exemplo, nas ações do Esquadrão da Morte. Para ficar em apenas duas delas, cito o bandido Mineirinho que em 1962 foi assassinado com 13 tiros e Cara de Cavalo que morreu com 52 tiros, em 1964.

Mineirinho foi tema de uma crônica de Clarice Lispector que, perplexa, interroga sobre cada bala que o matou e, na sua divisão subjetiva, nos devolve a ética ao invocar a justiça que olhe para a “lama viva” que somos e, justo por isso, “nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento”. E termina fazendo uma convocação: “Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado”.

A imprensa da época e a política higienista declararam apoio ao Esquadrão da Morte, numa espécie de gozo coletivo moralizador sustentado pela indústria da violência e pelos slogans sedutores de uma pretensa “política do bem”, que incide no social como uma verdade totalitária. A identificação com o justiçamento, e não com a lei simbólica, é uma forma ampliada do mesmo gozo que se evidencia em outros processos de identificação, como agora podemos constatar de maneira brutal nesta que podemos chamar de política de morte.

O imperativo de aniquilação da alteridade, as cenas de um mandatário que deliberadamente convoca as pessoas à compra de fuzis, e todo o atlas da violência e da necropolítica trazem ainda outras camadas como a espetacularização de imagens brutais, que invadem as redes sociais numa celeridade que impede qualquer recuo crítico. Na época do Esquadrão da Morte, a estratégia sensacionalista na divulgação dos crimes criou uma espécie de círculo vicioso: na medida em que as pessoas se acostumavam com a exposição a cenas mais tenebrosas, aumentava o apelo para efeitos espetaculares cada vez mais violentos e mais assustadores nas narrativas.

As imagens do último dia 7 de setembro são a síntese da violência institucionalizada e banalizada, e tocam numa ferida contemporânea: um governo que, sem nenhum véu, glorifica o autoritarismo, a repressão, a ditadura. Nos cartazes – a própria constatação desse destroçamento simbólico – pedidos de volta da ditadura militar, do voto impresso, do fim do Supremo Tribunal Federal.

Não é de se espantar que uma sociedade que desconhece sua história e enaltece com saudosismo os ainda recentes tempos autoritários, seja a mesma que é conivente com a arbitrariedade de grupos de extermínio. É uma sociedade siderada na imagem e sem capacidade crítica e ética para tratar a violência pela via simbólica.

O impacto dessa violência do imaginário está descrito no texto “O Inconsciente”, de Freud, em que o imaginário é apresentado como o campo das “primeiras e verdadeiras relações de objeto” que se forma antes que o contato com o real seja mediado pela palavra. O imaginário, neste sentido, nos dispensa da falta. É o campo da certeza e das ilusões totalizantes, território sobre o qual ergue-se a fortaleza protetora do narcisismo. É o campo das identidades que sustentam a miragem do ser, o campo em que se constituem, por efeito de espelhamento, todas as identificações humanas. O imaginário é essencial ao funcionamento psíquico. Por outro lado, também não é possível viver sob o domínio absoluto de seu efeito totalizador.

As imagens do “Dia da Independência” e dos anos passados sob um governo de morte só podem criar horror e incitar a rivalidade especular com o semelhante. Diante da identificação imediata que conclama a matar no outro aquilo que é insuportável, cabe um desvio ético: trata-se de um apelo ao simbólico, elemento pacificador dessa paranóia, que permite aos homens viverem juntos, estando separados estruturalmente. Num governo autoritário a relação com o outro é marcada pela fixação de que é preciso expulsar, matar, aniquilar tudo aquilo que descoincide com a própria imagem.

Marie José-Mondzain escreveu um contundente ensaio, com um título que é uma interrogação – A imagem pode matar? –, sobre uma questão crucial e que dialoga agudamente com as questões de nosso tempo: o poder e a violência da imagem.

A imagem pode gerar violência e o exemplo disto são os filmes nazistas que exaltavam a perfeição ariana e se alimentavam da fusão de todos no ódio ao outro. Há uma responsabilidade moral e ética da imagem, como detentora de poder sobre os atos humanos. Uma imagem é uma coisa, e uma coisa não pode agir. Pode, no entanto, fazer agir ou influenciar. Sendo a imagem uma forma de comunicação é, neste sentido também, um “prolongamento dos gestos e das palavras”.

Há pouco a dizer diante das barbaridades que estão sendo ecoadas por milhares de brasileiros, mas cabe a insistência ética de lutarmos pela espessura da vida, pela possibilidade aguda da alteridade. Devemos responder simbolicamente ao horror pela memória de todos que lutaram pela nossa possibilidade – ainda que precária – de liberdade. Deixo a lembrança do essencial num verso de Wislawa Szymborska:

Somos filhos da época e a época é política.
Todas as tuas, nossas, vossas coisas diurnas e noturnas, são coisas políticas.

 



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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