Renato Janine Ribeiro: O Brasil é um caso de sucesso na exclusão social – IREE

Opinião

Renato Janine Ribeiro: O Brasil é um caso de sucesso na exclusão social

Na estreia do novo estúdio do Podcast, o Reconversa do dia 2 de julho, recebeu o Professor Renato Janine Ribeiro, que abordou temas como educação no Brasil, desafios dos avanços sociais, diferentes pontos do espectro político, transparência do poder e fake news.

Nascido em Araçatuba (SP), Renato Janine Ribeiro foi Ministro da Educação em 2015, Diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e é Professor Titular da Universidade de São Paulo, na disciplina de Ética e Filosofia Política.

O que nós fizemos de errado em matéria de educação no Brasil

Renato Janine Ribeiro defendeu que a educação no Brasil sofre de um legado histórico de exclusão social, complicando qualquer reforma significativa, e ressaltou a estrutura confusa e fragmentada do sistema educacional e a ausência de um Sistema Nacional de Educação institucionalizado.

“A frase do Darcy Ribeiro “a deficiência na educação no Brasil não é um problema é um projeto” é verdade. Sem conhecê-la, eu disse uma coisa que vai na mesma linha: “o Brasil é um caso de sucesso na exclusão social”, quer dizer, o Brasil foi feito pra ser um país excludente, são 500 anos de expertise nisso, expertise primorosa. Fora isso, nós temos uma estruturação complicada da educação, não temos um Sistema Nacional de Educação Institucionalizado.”

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas agora vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

Não temos mais uma direita democrática

O Ex-Ministro defendeu que o Presidente Lula representa a possibilidade de unir os democratas, destacando que, há 20 anos, havia uma alternância saudável entre centro-esquerda e centro-direita que colaborava na construção de uma sociedade mais justa.

“O Presidente Lula é quem, nesse momento, representa a possibilidade de um grande acordo em reunir os democratas. Há 20 anos, tinha democratas de direita e de esquerda. Você tinha uma alternância nunca extremista, sempre de gente que dialogava e que convergia na construção de uma sociedade mais justa. O que aconteceu? A centro-direita sumiu, ela foi pra direita, pra extrema-direita. Por outro lado, a esquerda se identificou com as causas democratas. Não temos mais uma direita democrática.”

Extrema direita e retrocesso social

Ribeiro explicou que o modelo da extrema direita se baseia em transformar o desconforto causado pelos avanços sociais, sobretudo, os avanços identitários em uma narrativa explicativa para os problemas do mundo.

A cada vez que você tem um avanço, até ele ser assimilado, demora. E nesse período, que coincide com os primeiros governos do PT no Brasil, por exemplo, os avanços identitários foram muito grandes. Mulheres, gays, negros e indígenas receberam mais atenção do governo. E de repente, um pessoal estava estranhando isso e o incômodo virou um esquema explicatório dos males do mundo. Esse é o grande modelo da extrema direita no mundo. A ideia de que eu estou mal porque alguém tirou o que me era devido.”

O poder das redes sociais

Ao ser questionado sobre o impacto das redes sociais, Renato Janine Ribeiro afirmou que elas retiraram a transparência do poder, dificultando a identificação de quem está no comando.

“As redes sociais fizeram uma coisa muito estranha, elas tiraram a transparência do poder. A gente não sabe mais quem manda ou quem manda é uma coisa que parece pulverizada e que, no entanto, pode ter gente atrás. Na rede social, você não sabe de onde vem a ordem.”

Erosão das bases do contrato social

Em relação a estarmos vivendo a erosão das bases do contrato social, o professor ressaltou que atualmente muitas pessoas não estão dispostas a fazer concessões essenciais para a vida em democracia, e que há uma perda do diálogo e dos referenciais mínimos de verdade e valores que comprometem a convivência e o futuro da humanidade.

“Nós temos hoje um pessoal que não está disposto a fazer acordo porque a vida social numa democracia é feita de contratos o tempo todo. Pra gente ter diálogo, a gente precisa de duas condições: concordância e certos valores. Quando você não tem mais um referencial mínimo, ou mesmo um referencial, não matarás ou direitos humanos, na hora que essas coisas todas possam ser postas em cheque, fica muito complicado o contrato social, a convivência, o futuro da humanidade.”

Fake news é a mentira em larga escala

Renato Janine Ribeiro alertou que as fake news não são meras distorções acidentais da verdade, mas sim mentiras produzidas e disseminadas em escala industrial com o objetivo de causar um impacto negativo significativo na sociedade

“Em um debate como o de Biden e Trump, a questão principal da imprensa deveria ser quem disse a verdade e quem mentiu. Com frequência, eu vejo afirmações: “cinco mentiras sobre a internet”. Quando são cinco inverdades. Mentira sempre supõe a intenção de enganar e a intenção de enganar muda totalmente a coisa. A mentira nunca é inocente e a fake news não é senão a mentira em escala industrial, é uma mentira realmente visando a causar uma devastação muito grande.”

 



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