Relação Brasil-China: 50 Anos de cooperação estratégica – IREE

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Relação Brasil-China: 50 Anos de cooperação estratégica

14 de agosto de 2024

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Neste ano de 2024, mais precisamente no dia 15 de agosto, comemora-se o 50º aniversário do estabelecimento oficial das relações diplomáticas entre o Brasil e a República Popular da China. Ao longo dessas cinco décadas, a parceria entre os dois países evoluiu de uma mera interação comercial para uma colaboração estratégica, que hoje inclui além do comércio, investimentos em tecnologia, educação, meio ambiente e cooperação em política internacional.

O comércio entre Brasil e China teve um crescimento exponencial ao longo dos anos. Em 1980, o comércio entre os dois países era de apenas US$ 1 bilhão. Em 2009, a China se consolidou como o maior parceiro comercial do Brasil e, em 2023, esse número atingiu US$ 150 bilhões. Especificamente, as exportações brasileiras para a China, que incluem commodities como soja, minério de ferro e petróleo, representaram mais de 35% do total das exportações do Brasil em 2022. A China, por sua vez, exportou para o Brasil principalmente produtos manufaturados e tecnologia de ponta, contribuindo para a modernização industrial do país.

Os investimentos chineses no Brasil cresceram substancialmente, especialmente na última década. Entre 2007 e 2022, o total de investimentos chineses no Brasil ultrapassou US$ 70 bilhões, abrangendo setores de energia, infraestrutura e agronegócio. No setor de energia, a China tem participação em 50% das hidrelétricas privatizadas e em mais de 20% das linhas de transmissão de energia no Brasil, além de investir em projetos de energia renovável, como a construção de parques solares e eólicos, que juntos adicionaram cerca de 5 gigawatts à matriz energética brasileira.

No setor de infraestrutura, empresas chinesas participaram na construção e modernização de mais de 4.000 km de ferrovias, além de modernizarem portos e desenvolverem projetos de mobilidade urbana em várias cidades brasileiras. Além de gerarem aproximadamente 200 mil empregos diretos e indiretos, esse investimentos aumentaram a eficiência logística do país em 25%, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

A cooperação sino-brasileira no campo científico e tecnológico tem sido também um dos pilares dessa relação. O programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite), iniciado em 1988, resultou no lançamento de seis satélites de observação terrestre até 2023. Esses satélites têm sido fundamentais para a pesquisa ambiental, monitoramento do desmatamento, agricultura de precisão e gestão de recursos naturais no Brasil, além de fornecerem dados para cerca de 60 instituições de pesquisa em todo o mundo. O programa é visto como um modelo de cooperação em ciência e tecnologia, com um custo total de US$ 800 milhões desde sua criação.

Além disso, a China e o Brasil colaboram em biotecnologia, com foco em pesquisa agrícola. Em 2022, essa cooperação resultou em novas variedades de soja geneticamente modificadas, mais resistentes a pragas e adaptadas às condições climáticas brasileiras, ajudando a aumentar a produtividade agrícola em 15%, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

As trocas culturais e educacionais entre os dois países também cresceram de forma significativa. Em 2023, mais de 20 mil estudantes brasileiros estavam matriculados em universidades chinesas, enquanto o número de estudantes chineses no Brasil ultrapassou os 15 mil. O Instituto Confúcio, com 15 unidades em todo o Brasil, promove o ensino da língua e cultura chinesas, contribuindo para um intercâmbio cultural mais profundo.

Programas de intercâmbio acadêmico, como o “Ciência sem Fronteiras”, permitiram que mais de 5 mil estudantes brasileiros realizassem parte de seus estudos na China entre 2011 e 2017, nas áreas de engenharia, tecnologia da informação e saúde. Além disso, o Brasil tem oferecido cursos de português em universidades chinesas, e cerca de 10 mil chineses já passaram por esses programas até 2023.

No cenário internacional, Brasil e China têm atuado conjuntamente para promover uma ordem mundial multipolar. Como membros do BRICS, os dois países têm defendido a reforma das instituições financeiras internacionais, buscando maior representação para os países em desenvolvimento. Em 2023, por exemplo, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) do BRICS, com sede em Xangai, financiou projetos no Brasil no valor de US$ 2 bilhões, focados em infraestrutura sustentável e energias renováveis.

A cooperação em sustentabilidade é outra área importante. Em 2022, a China anunciou um investimento de US$ 10 bilhões em projetos de energia limpa no Brasil, incluindo a construção de novos parques eólicos e solares com capacidade conjunta de 7 gigawatts, o que representa um aumento de 30% na capacidade de energia renovável do país. Além disso, a parceria sino-brasileira em tecnologias verdes e combate às mudanças climáticas inclui a colaboração em pesquisa sobre a Amazônia e o desenvolvimento de bioenergia.

À medida que Brasil e China comemoram 50 anos de relações diplomáticas, é crucial considerar o futuro dessa parceria. A diversificação do comércio bilateral, o aprofundamento da cooperação tecnológica e científica e o fortalecimento da aliança política serão fundamentais para enfrentar os desafios globais emergentes. A crescente competição entre grandes potências também influenciará essa relação, exigindo um diálogo político contínuo e uma abordagem estratégica em um cenário geopolítico cada vez mais complexo.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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