Reinventar o Brasil – o destino é a origem – IREE

Colunistas

Reinventar o Brasil – o destino é a origem

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



Dos encontros êxtimos que na psicanálise – mais precisamente na psicanálise lacaniana – configuram uma relação com a diferença, com o dentro que também é fora, se forja também uma ideia de identidade – no caso, a brasileira – que passeia por um campo diverso e por irradiações múltiplas da cultura e da subjetividade.

Sigmund Freud diz do “infamiliar” – ou “familiarmente estranho” ou, ainda, “estranhamente familiar”  – para remontar à dimensão de ambiguidade e flutuação no território em que se pensa a identidade. Jacques Lacan chama de “extimidade” um ponto êxtimo em que habita o fora que retorna ou uma exclusão que se inclui subrepticiamente nas filigranas de uma experiência, marcando algo como uma inquietante estranheza.

É desse ponto trêmulo e originário que pretendo sustentar minhas andanças pelo Brasil, como quem investiga um caleidoscópio surrealista. São viagens que já fazem parte do trabalho que desenvolvo como curadora e crítica de arte, e animam uma decisão ética e estética de pensar o país e suas singularidades.

Em recente ida à Goiás senti a vibração de uma riquíssima cena artística e, na passagem por exposições, ateliês e encontros com artistas, pude perscrutar a ideia de um país vivo, delirante, plural e inventivo. No Centro-Oeste do país, a cena parece conjugar um diálogo de questões do assombro e do absurdo com uma estranha beleza que atravessa a aridez singular e pulsante do cerrado. O cerrado é um acontecimento, pura alteridade e espanto. São outras formas de pensar e criar, forjadas no redemoinho do Brasil, cultivando o estatuto de invenções das margens que tomam agora a dianteira dos debates mais urgentes do contemporâneo, com a descentralização dos eixos canônicos e dominantes da arte. Ao citar o poeta e amigo Jorge de Sena, Murilo Mendes assinala: “O Brasil é surrealista de nascimento”.

Estive na cidade de Pirenopólis para participar de um festival de cine-documentário, o PiriDoc. O festival – uma extraordinária realização de Fabiana Assis e sua equipe – é uma demonstração de vigor que muito revela de um país ainda por se conhecer. Foi realizado no Cine Pirineus, um belissimo prédio rosa e azul construído em 1919, em estilo art-decó, localizado em uma simpática rua de pedras. O então teatro virou cinema em 1936 e sobrevive com graça. Por ali passaram o cinema mudo e filmes em preto e branco e, no PiriDoc, exibiu-se o que há de mais novo e potente no cine-documentário local e nacional.

Com quase 300 anos, Pirenópolis desafia qualquer tentativa de controle, com casas que parecem estar suspensas – não na névoa de Guignard e seus assombros mineiros, mas na aridez fascinante e fértil do cerrado. Pura alteridade e indizível que escancara as feridas e perplexidades do país, um lugar que parece ter estacionado no tempo, dizendo ao de fora que “não temos vontade alguma de agir segundo sua cartilha”. Indomável, cheia de aclives e declives, com ares um pouco medievais e fantasmagóricos, as paredes de adobe da cidade parecem guardar segredos imemoriais. Com cachoeiras, paisagem e vegetação exuberantes, é uma savana brasileira atravessada pela arquitetura colonial portuguesa. Na Festa do Divino, que acontece depois da páscoa como um assombroso e maravilhoso delírio, a cidadezinha, cravada no centro do país, revela seu coração e descortina os enigmas e feridas que nos constituem. Talvez um rio das almas, com seus fantasmas e silêncios, mais desamparado que festivo, com a beleza singular de tudo que escorre e permanece, entre cafés pitorescos e desejos de além mundo.

Em Goiás profundo – absurdo, mágico e delirante – não é de se estranhar que a proximidade com o céu, a luz do cerrado e certa magia indizível criem narrativas de discos voadores e alienígenas. Um lugar de onde artistas como Claudimar – com suas pinturas herdeiras de Poteiro – e Robertão – com suas máscaras herdeiras da tradição das cavalhadas e reinventadas com humor peculiar – nos contam de um Brasil que existe e se preserva.

Para Robertão, as cavalhadas são lugar de invenção e descoberta: quando seu próprio corpo não cabia no mundo, ele reinventou as máscaras da festa e, com restos encontrados na rua e objetos de seu quintal, cria e cava diálogos com o mundo.

De volta a São Paulo, não pude deixar de ir a “Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou” e “Festas, sambas e outros carnavais” – em cartaz no IMS Paulista e no Sesc Casa Verde, respectivamente – exposições que muito me emocionaram. De volta a São Paulo, me encantei com o show carnavalesco da Mocidade Alegre, campeã com o samba-enredo “Brasiléia Desvairada: a busca de Mário de Andrade por um país”.

Máscaras, perplexidades, celebrações populares que revelam que a dimensão espiritual na arte não precisa estar próxima de algo anódino ou incompreensível: pode estar nas entranhas do povo, naquilo que temos de mais singular e valioso como país.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

Leia também