6 de maio de 2025
Visitar – e revisitar – espaços de arte, exposições e livros pode ser um exercício de percorrer utopias, uma forma de mergulhar nas profundezas das relações ancestrais, sensíveis e políticas que constituem a identidade múltipla e derivante do país, com os imprevistos e paradoxos que daí decorrem. Nesse contexto, uma beleza que se consagra como aparição fundamental é a primorosa obra de catalogação apresentada em “Têxteis do Brasil”, livro organizado pela antropóloga Helena Kussik e publicado pela Artesol, uma organização sem fins lucrativos fundada em 1988 por Ruth Cardoso para apoiar os artesãos do Brasil e revitalizar o artesanato de raiz cultural do país.
Através da linguagem têxtil marcadamente constitutiva do cotidiano dos brasileiros, a publicação de “Têxteis do Brasil” coloca acento na imaginação, como bem assinala Clara Nogueira no prefácio do livro: “Os fios que tramam os saberes e fazeres ao território são tecidos por mulheres que, sozinhas ou em grupos, ocupam suas casas, varandas, calçadas, praças e ruas. Nesses locais, onde permanecem muitas vezes por horas a fio, a sociabilidade faz parte de suas criações e está enraizada no cotidiano. Elas são praticantes da atuação simbólica e da convivência social, que geram a vida sensível e originam os territórios têxteis”.
O livro é uma espécie de fio nervoso que conduz a pulsação de um fazer – uma forma de sustentar um cordão que nos liga ao ancestral que engendra a criação de si e do mundo – que, se não for narrado e transmitido, pode desaparecer. Trata-se de um profundo mapeamento do nordeste brasileiro, região com expressiva produção manual e feminina. No fiar incessante e perpétuo encontramos linhas de fugas tão radicais quanto singulares, composições de brechas que possibilitam o movimento por outros e novos territórios da invenção que fazem contraposição aos espaços contemporâneos de desertificação.
O trabalho em argila – outro saber ancestral – pode ser apreciado na exposição “Corpo-pote” (Casa Fiat de Cultura, Belo Horizonte). Em um processo marcadamente rudimentar e intuitivo, Flávia Soares faz nascer potes cerâmicos que surgem de uma relação mágica e alquímica em configurações orgânicas e viscerais, abrigando a presença de uma forma que gera outra forma incluindo, ao mesmo tempo, a delicadeza gestual, a ferocidade e a aspereza da matéria. A argila – tema de devaneios sem fim – é a substância poética que se modula na presença de gestos sempre únicos e singulares. Na experimentação com o material, a artista transforma barro em corpo cerâmico e, nesse processo, inclui sua relação com a terra e o orgânico, desestabilizando hierarquias e desbravando uma linguagem artística própria.
Na cidade de São Paulo, argila e cerâmica podem ser vistas em uma exposição que reúne trabalhos de Julia Isidrez e Maria Lira (Galeria Gomide & Co). Julia Isidrez é uma artista que honra suas origens, uma tradição centenária cujas raízes remontam ao período pré-colombiano do Paraguai, seu país de nascimento. Ela aprendeu com a mãe a trabalhar com o barro e, em suas obras, cria figuras zoomorfas e corpos híbridos, que conjugam animais típicos de sua região e a dimensão da fabulação. Sua obra dialoga com a de Maria Lira, uma mineira de 80 anos nascida no Vale do Jequitinhonha que conseguiu, no circuito de arte contemporânea, romper barreiras e nomenclaturas.
Maria Lira rompeu barreiras e nomenclaturas, estabelecendo-se no circuito de arte contemporânea. O livro que leva seu nome – organizado por Rodrigo Moura e publicado pela Act – registra a relação visceral da artista com o território que a forjou, bem como resgata elementos da tradição popular em sua estética e prática. Maria Lira, “herdeira e vizinha dos maxacalis, povo originário daquelas paragens do nordeste de Minas Gerais, cresceu, assim como eles, desconhecendo fronteiras muito estritas entre o que se chama vida ou aquilo que identificamos como arte – seja na religião, na festa, na organização comunitária ou na vida doméstica. Com o pai, Tarcísio, descobriu os primeiros insumos que utilizou para escultura – a cera de abelha que ele usava como sapateiro para revestir a linha de costurar o couro. Com essa matéria, moldou pela primeira vez, sentiu o gesto criador que vinha das mãos. A mãe, Odília, filha de uma Lira mais antiga, a avó de quem a artista recebeu o nome, executa peças de argila crua pintada com tinta adquirida no comércio de Araçuaí. Para reforçar o barro, catado na beira do rio, a mãe adiciona componentes como o trigo, para dar liga, e a cinza, para melhorar a propriedade de queima — antigas técnicas de origem indígena e africana que passam de geração em geração”.
Arte, livros e espaços expositivos criam e instigam olhares atentos ao que se pode inventar a partir do radicalmente original. O caminho se refaz em uma ideia de Brasil que passa pela memória, arte e gesto, dispositivos éticos e estéticos que fundam um destino menos colonial e mais genuinamente nosso.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Bianca Coutinho Dias
É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).
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