12 de dezembro de 2025
Os dados mais recentes do IBGE mostram uma queda consistente da pobreza no Brasil entre 2023 e 2024. Nesse período, 8,6 milhões de brasileiros deixaram a pobreza, enquanto 1,9 milhão superaram a extrema pobreza. Com a terceira redução consecutiva desses indicadores, o país alcançou o melhor resultado desde o início da série histórica, em 2012.
O avanço é importante, mas os números ainda evidenciam uma realidade muito dura, de um país que figura entre os mais desiguais do mundo e no qual milhões de pessoas sobrevivem com uma renda incapaz de garantir uma vida digna.
O que dizem os dados sobre queda da pobreza no Brasil
O IBGE considera pobres as pessoas que vivem com menos de US$ 6,85 por dia, valor adotado como padrão internacional pelo Banco Mundial. Em 2023, havia 57,6 milhões de brasileiros em situação de pobreza, o equivalente a 27,3% da população. Em 2024, esse contingente caiu para 48,9 milhões, ou 23,1%.
O número de pessoas vivendo na extrema pobreza, por sua vez, definida pelo IBGE como a condição de quem vive com menos de US$ 2,15 por dia, recuou de 9,3 milhões, em 2023, para 7,4 milhões, em 2024. Em termos percentuais, significa que caiu de 4,4% para 3,5% da população brasileira.
Razões para a queda da pobreza
É possível atribuir a redução da pobreza e da extrema pobreza principalmente às políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que atendem um número significativo de pessoas, e ao mercado de trabalho aquecido, que tem provocado um crescimento da renda média da população ocupada, junto com a diminuição da informalidade.
Para se ter uma ideia do impacto das políticas de transferência de renda, segundo cálculos do IBGE, sem elas, a taxa de extrema pobreza seria quase três vezes maior, saltando de 3,5% para 10%. No caso da pobreza, a proporção subiria de 23,1% para 28,7%. Atualmente, o Bolsa Família chega a 18,65 milhões de famílias — cerca de 48,59 milhões de pessoas — com um valor médio de R$ 683,28 (dados de novembro de 2025). Já o BPC, destinado a idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência, beneficia 6,02 milhões de brasileiros, com pagamento equivalente a um salário mínimo (dados de julho de 2025).
O impacto da melhoria do mercado de trabalho também é significativa nesse quadro, pois vem acompanhada de um aumento da renda. A taxa de desemprego atingiu 5,4% no trimestre encerrado em outubro, a menor da série histórica da PNAD Contínua. O país registrou 5,9 milhões de desempregados, o menor contingente já medido, enquanto a renda média do trabalho chegou a R$ 3.528, o maior valor da série. O nível de ocupação também está elevado: 58,8% da população em idade de trabalhar está empregada.
Perspectivas e desafios
Apesar dos avanços, o desafio de combater a pobreza no Brasil permanece enorme se considerar que ainda existem cerca de 48,9 milhões de pessoas pobres e 7,4 milhões extremamente pobres no país. Segundo dados do Censo de 2022, 35,3% dos trabalhadores brasileiros recebem até um salário mínimo, que será de R$ 1.621 em 2026, e 32,7% ganham de um até dois salários (no máximo R$ 3.242). Já o DIEESE calcula que o valor necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de cerca de R$ 7 mil, ou seja, o Brasil é um país de rendimentos muito baixos.
Por outro lado, apenas 0,13% da população, cerca de 141,4 mil brasileiros, recebe mais que 50 mil por mês, segundo o governo federal. Essa disparidade coloca o Brasil entre os países mais desiguais do planeta. Segundo o Relatório da Desigualdade Global 2025, do World Inequality Lab, o país ocupa a 5ª posição entre 216 países e territórios com maior desigualdade de renda do mundo.
A redução da pobreza no Brasil só será sustentável se vier acompanhada de uma queda expressiva da desigualdade. Países que conseguiram avanços duradouros mostram que diminuir a distância entre ricos e pobres é condição essencial para um desenvolvimento que alcance toda a população. A aprovação neste ano da isenção tributária para quem ganha até R$ 5 mil, com maior taxação de super-ricos, é um passo importante nesse sentido, que precisa ser acompanhado por um conjunto mais amplo e consistente de políticas de justiça tributária e de valorização da renda.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Samantha Maia
É jornalista e diretora de Comunicação do IREE
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