26 de fevereiro de 2026
Assisto a reality shows e reconheço que minha participação não é neutra. Escolho lados, formo juízos, experimento irritação e, ocasionalmente, satisfação diante da eliminação de determinados participantes. Essa constatação, que poderia parecer trivial, tornou-se ponto de partida para uma inquietação mais ampla: que tipo de disposição ética está sendo mobilizada e reforçada por esse formato de entretenimento?
Em muitos momentos, percebi que minha reação ultrapassava a simples discordância. Havia investimento emocional na punição simbólica de alguém que eu não conhecia, com base em recortes editados de convivência. A narrativa televisiva, construída para intensificar conflitos e produzir clareza dramática, era recebida por mim como se revelasse totalidade de caráter.
Esse mecanismo pode ser compreendido à luz da noção de sociedade do espetáculo, formulada por Guy Debord. Para o autor, as relações sociais passam a ser mediadas por representações que substituem a experiência direta. No reality show, não se consome apenas convivência, mas sua dramatização sistemática. A vida cotidiana é reorganizada segundo a lógica da narrativa, e sujeitos complexos são convertidos em personagens funcionais ao enredo.
A edição não inventa necessariamente fatos, mas seleciona, enfatiza e organiza acontecimentos de modo a produzir inteligibilidade moral. A figura do vilão, da vítima ou do estrategista oferece ao público categorias claras de interpretação. A ambiguidade é reduzida para que o conflito se torne consumível.
Do ponto de vista psicológico, a projeção ajuda a explicar a intensidade das reações. Conforme a tradição psicanalítica descreve, deslocamos para o outro conteúdos que nos ameaçam ou que permanecem mal elaborados em nossa própria experiência. O participante deixa de ser apenas indivíduo e passa a representar conflitos simbólicos mais amplos.
Entretanto, a dimensão sociológica amplia significativamente essa análise. Vivemos em um contexto marcado pela economia da atenção, no qual visibilidade se converte em capital. A indignação produz engajamento, e o engajamento é recompensado por reconhecimento social. Nesse cenário, a condenação pública deixa de ser apenas juízo moral e se torna também performance.
Byung-Chul Han descreve a contemporaneidade como sociedade da exposição e da transparência compulsória, na qual a exibição constante de posições e afetos é incentivada. A indignação não é apenas sentida; ela é encenada. A demonstração pública de retidão moral funciona como forma de afirmação identitária.
A contribuição de Zygmunt Bauman permite aprofundar essa reflexão. Em sua análise da modernidade líquida, Bauman argumenta que as relações tornam-se progressivamente frágeis, transitórias e descartáveis. Essa liquidez não se limita aos vínculos afetivos; ela atravessa também a esfera moral. Indivíduos passam a ser rapidamente classificados, consumidos simbolicamente e descartados. O erro não é interpretado como episódio, mas como essência. A pessoa é reduzida ao momento que a define negativamente.
O reality show, nesse sentido, opera como microcosmo de uma cultura mais ampla de descartabilidade simbólica. Participantes são elevados à condição de protagonistas e, em seguida, convertidos em alvos de rejeição massiva. A eliminação não é apenas elemento estrutural do jogo, mas ritual público de exclusão.
É importante distinguir crítica legítima de desumanização. A vida democrática exige avaliação e responsabilização de condutas. Contudo, a naturalização da redução do sujeito a um único comportamento revela empobrecimento ético. Quando a condenação se torna espetáculo recorrente, a complexidade humana é sacrificada em nome da clareza narrativa.
A inquietação que emerge não se dirige exclusivamente ao formato televisivo, mas à disposição subjetiva que ele ajuda a consolidar. O hábito de julgar a partir de recortes editados tende a se reproduzir em outros espaços sociais. Vídeos descontextualizados definem reputações. Fragmentos discursivos substituem trajetórias inteiras. A lógica do espetáculo atravessa o debate público.
Ao reconhecer em mim mesma o prazer na punição simbólica, compreendi que o fenômeno não é externo. Ele revela a internalização de uma gramática social que privilegia rapidez, simplificação e exibição moral. Reality shows não criam essa cultura, mas a tornam visível e a reforçam.
A questão central, portanto, não é simplesmente se tais programas manipulam narrativas, mas que tipo de sensibilidade ética está sendo exercitada em sua fruição. Se a sociedade do espetáculo organiza a percepção coletiva e a modernidade líquida fragiliza vínculos e identidades, é preciso perguntar se estamos fortalecendo nossa capacidade de discernimento ou apenas aperfeiçoando a pedagogia contemporânea da condenação.
Quando a punição simbólica se converte em entretenimento regular, corre-se o risco de naturalizar a redução do outro à condição de personagem descartável. E essa disposição, uma vez internalizada, dificilmente permanece restrita à tela.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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