Quem pode sonhar no Brasil? A retórica do ministro da Casa Civil – IREE

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Quem pode sonhar no Brasil? A retórica do ministro da Casa Civil

Letícia Chagas

Letícia Chagas
Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto



No dia 27 de abril de 2021, foi transmitida ao vivo uma reunião do Conselho de Saúde Suplementar, em que estavam presentes os ministros Paulo Guedes (Economia), Marcelo Queiroga (Saúde) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil). Na ocasião, Ramos, que não sabia estar sendo gravado, admitiu que teria tomado a vacina contra a COVID-19 escondido, e justificou sua decisão por imunizar-se: além de ter uma linda família, ele ainda tem sonhos a serem vividos e, por isso, não quer morrer.

“Eu tomei [a vacina] e vou ser sincero. Porque eu, como qualquer ser humano, eu quero viver, pô. Eu tenho dois netos maravilhosos, tenho uma mulher linda, eu tenho sonhos ainda. Então, eu quero viver, pô”, disse o general Luiz Eduardo Ramos.

Além disso, o ministro da Casa Civil admitiu a gravidade da doença, demonstrando preocupação com as novas cepas do vírus, que estariam matando também pessoas próximas a ele. Diante do medo do contágio, afirma a importância da vacinação e assume suas tentativas de convencer Jair Bolsonaro a também vacinar-se. Ramos é um homem de sonhos.

Contudo, ele compõe um governo que tem atuado na contramão de suas preocupações. Bolsonaro, para além de negacionista, trabalha ativamente para dificultar o combate ao coronavírus. Os exemplos são muitos, a começar pelo incentivo ao uso de remédios comprovadamente ineficazes contra o vírus, gastando milhões de dinheiro público com a produção de cloroquina,  enquanto faltava oxigênio e remédios para intubação nos hospitais públicos.

Quem pode sonhar no Brasil? A retórica do ministro da Casa Civil

Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Enquanto o ministro Luiz Eduardo Ramos se vacina e defende, nos bastidores, que seus familiares e amigos tenham cuidado com o vírus, ele compõe um governo que incentiva a população a não usar máscaras, tendo como exemplo a figura do próprio presidente, que várias vezes já apareceu publicamente sem elas, inclusive diante de aglomerações.

Compõe um governo cujo presidente já afirmou que não tomaria vacina contra a COVID-19 e, apesar de ter “calibrado” seu discurso, tampouco incentiva a população a se vacinar. Um presidente que se recusa a apoiar um lockdown mesmo diante de altas taxas de contaminação, colocando em risco a vida de milhares de trabalhadores que precisam botar comida na mesa de casa, porque os R$300 do auxílio emergencial mal pagam as compras do mês, que dirá o aluguel.

Por tudo isso, a declaração do ministro Luiz Eduardo Ramos é sintomática da crueldade que se tornou símbolo do atual governo federal. Apesar de reconhecer a gravidade do vírus, Ramos apoia e dá suporte a uma política negligente e que já causou a morte de mais de 400 mil pessoas em nosso país. São milhares de pessoas que também tinham sonhos, mas tiveram cada um deles interrompidos.

Ramos é um homem de sonhos, que demonstra uma válida preocupação com a gravidade da COVID-19 e que por isso busca cuidar dos seus e de seu presidente. E, talvez por isso, se encaixa tão bem no governo Bolsonaro: nosso presidente também demonstra intensa preocupação com seus familiares e amigos, utilizando-se da máquina estatal para protegê-los sempre que possível.

Para Bolsonaro e seu ministro, pouco importam aqueles que são enganados por suas retóricas e incentivados a não se vacinarem, tampouco adotarem medidas de distanciamento social. Pouco importam as milhares de pessoas que não têm condições de ter uma vida digna, padecendo da ausência de uma renda básica enquanto o governo gasta milhões comprando parlamentares com emendas.

Ao tomar vacina escondidinho, Ramos busca garantir que poderá realizar seus sonhos. Mas os sonhos dos outros que se danem, e o pobre que se exploda e morra de fome ou de vírus. Um grande homem sonhador.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Letícia Chagas

Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto. Graduanda em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Programa de Educação Tutorial (PET) Sociologia Jurídica.

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