Quem ganhou e quem perdeu a eleição de 2020? – IREE

IREE - Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa

Colunistas

Quem ganhou e quem perdeu a eleição de 2020?

Carolina de Paula

Carolina de Paula
Cientista Política



A pergunta sobre quem ganhou e quem perdeu a eleição de 2020 pautou inúmeros debates na imprensa e outras incontáveis análises nas redes sociais. Geralmente nesses debates há projeções para o cenário eleitoral de 2022.

No último domingo, dia 29 de novembro de 2020, assim que os resultados das urnas foram revelados, uma das frases mais recorrentes dos jornalistas de plantão na televisão foi que “o PT saiu derrotado, pois não ganhou em nenhuma capital”.

Existe uma tentativa por parte da mídia em agendar a ideia de que “agora derrotado, o PT precisará dividir o poder com os outros partidos da esquerda”. Trata-se de uma suposição carregada de inconsistências analíticas.

O primeiro equívoco desse estilo de análise, apressada a meu ver, é não entender que em eleições municipais não há vencedores ou perdedores de modo absoluto.

Você gostaria de entender o fenômeno do autoritarismo na atualidade e os meios para combatê-lo? Clique aqui e conheça o curso “Autoritarismo – Compreender Para Combater”!

Se formos observar o número de votos válidos que cada legenda angariou em todo o território nacional e compararmos ao pleito municipal anterior, de 2016, o ranking de vencedores e perdedores será totalmente distinto.

O PSDB, por exemplo, através desse singelo exercício, seria o maior derrotado, já que “perdeu” quase 1/3 dos seus eleitores. Porém, ao ter conquistado o Executivo do maior colégio eleitoral, São Paulo, passa a sensação de “vitorioso”.

Outro tipo de exercício possível é comparar o número de votos válidos para a Câmara de Vereadores conquistados por partido de acordo com o porte de município. Novamente há um embaralhamento no ranking das legendas vitoriosas/derrotadas. O PT, nesse exercício, obteve crescimento dos votos no segmento de cidades acima de 500 mil eleitores.

O segundo equívoco é oferecer projeções para as eleições gerais de 2022. Dois anos em política é um longuíssimo prazo. As análises preditivas que levaram em conta o humor do eleitorado de 2018 para definir os resultados de 2020 erraram, e muito.

E não me refiro ao evento imponderável da pandemia da Covid-19, mas sim às previsões focadas no eleitor de 2018 impactado pela antipolítica e pela agenda de combate a corrupção produzida pela Operação Lava Jato. Errou quem apostou na repetição da força dessa narrativa.

Exemplo disso, foi o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), que no último debate eleitoral, realizado pela Rede Globo, afirmou que o “eleitor carioca não quer ouvir propostas, mas sim discutir o problema da corrupção e avaliar o caráter do candidato”. Certamente a derrota de Crivella nas urnas é majoritariamente derivada da sua incompetência como gestor, mas a tentativa de reciclar a narrativa do “combate a corrupção” obteve um estrondoso fracasso.

A meu ver, afirmar que Jair Bolsonaro saiu “derrotado” em 2020 também se trata de um equívoco. Houve um empenho bastante medíocre do presidente em promover os seus poucos candidatos escolhidos em meia dúzia de lives nas redes sociais. Se Bolsonaro foi guiado por uma escolha racional ao “lavar as mãos” ou se realmente não se interessou pelo pleito é algo que não saberemos avaliar, pois não há informação pública sobre tal decisão.

Por fim, vale ressaltar que os estudos acadêmicos sobre o impacto das eleições municipais nas eleições gerais subsequentes são inconclusivos. Basta olharmos para o último par de eleições, 2016-2018.

Em 2016, o PT amargou a perda de 60% das suas prefeituras conquistadas em 2012, e dois anos depois obteve a maior bancada da Câmara dos Deputados no cômputo geral.

Por outro lado, o PSDB, o grande vencedor em número de prefeituras em 2016, viu sua bancada parlamentar minguar em 2018.

Em toda eleição o contexto importa, seja ele econômico, político ou social. Assim, um pouco mais de paciência para imaginar o quadro de 2022 será necessário.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Carolina de Paula

É doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ, Diretora Executiva do DataIESP e consultora da UNESCO. Coordenou o "Iesp nas Eleições", plataforma multimídia de acompanhamento das eleições de 2018. Foi coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, atuando em diversas campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Escreve mensalmente para o IREE.

Leia também