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Quando o saudosismo encontra a realidade

Carolina de Paula

Carolina de Paula
Cientista Política



Em abril, o aniversário de 100 dias do governo Bolsonaro presenteou aos analistas da política um interessante conjunto de dados extraídos de pesquisas de opinião pública sobre o humor dos brasileiros.

Independentemente da fonte e da metodologia existe uma nítida tendência de queda da popularidade do presidente Jair Bolsonaro de janeiro para cá. Desde Fernando Collor, eleito em 1989, nenhum presidente teve sua popularidade tão desidratada em tão pouco tempo.

Cientistas políticos ainda batem cabeça para explicar as causas da vitória do ex-capitão, um antigo político do baixo clero da Câmara dos Deputados, sem brilho e sem base partidária.

Podemos elencar uma série de hipóteses, algumas relacionadas ao crescimento da direita no contexto mundial e do expressivo populismo conservador que assola até mesmo as democracias mais longevas.

Por ora, quero chamar atenção sobre dois pontos. O primeiro se refere ao expressivo desencanto da população com os militares no poder após a ascensão de Bolsonaro diagnosticado pelas pesquisas de opinião do IBOPE, conforme apontado na revista Piauí.  O segundo trata da expressiva volatilidade do eleitorado no interim da campanha eleitoral de 2018.

O saudosismo em teste

Feita a partir de amostra estatística nacional, a pesquisa do IBOPE revela que, em janeiro de 2019, 62% dos entrevistados consideravam “ótimo/bom”, idealmente, um governo militar no poder. Já em abril, a mesma pergunta revelou acentuada queda de 13 pontos (49%), ou seja, há praticamente um empate técnico, se considerarmos a margem de erro da pesquisa, entre a população saudosista do militarismo e a que considera “ruim/péssimo” a volta dos militares na política brasileira (45%).

Sabemos que o discurso atrelado ao saudosismo militar serviu de importante base narrativa para a campanha do candidato da direita, juntamente com a ideia de “lei e ordem”.

Contudo, passados apenas quatro meses, a chegada de um ex-militar ao cargo máximo da República serviu para colocar em teste essa saudade.

De modo geral, nas sondagens de opinião, os entrevistados avaliam seus representantes com base em percepções bastante singelas e cotidianas da economia e da política: o desemprego – próprio, da família ou de seus amigos –, o preço da gasolina e dos produtos no supermercado, o bom/mau atendimento na rede pública de saúde, a conquista de uma vaga para o filho na creche perto de casa, por exemplo.

Além disso, é claro, temos a percepção da imagem e postura pública de seus representantes, construída pela imprensa ou, como acontece hoje, via os canais de comunicação direta dos mandatários, nas redes sociais.

O que os índices das pesquisas revelam é que o anseio pela volta de uma “época de ouro” liderada pelos militares está cada vez menor. Parece que o exemplo concreto do militarismo no poder serve de antídoto contra a saudade.

A volatilidade do eleitor

O segundo aspecto a se destacar diz respeito ao resultado de uma pesquisa recentemente divulgada, ainda em contexto exploratório, pelo cientista político Lucio Rennó, da UnB, em evento promovido na UFMG.

Os dados são de uma pesquisa de opinião do tipo painel feita em 2018, em que os mesmos entrevistados são inquiridos ao longo do tempo sobre uma série de assuntos, entre eles, a intenção de voto.

As ondas da pesquisa foram em março, setembro e outubro. Chama atenção o alto índice de volatilidade da decisão do eleitor brasileiro em 2018. Somente 1/3 dos entrevistados nas três ondas mantiveram a intenção de voto declarado em março e o voto em outubro, os chamados, “eleitores convictos”.

A pesquisa revelou que houve forte impacto da campanha, tendo em vista a alta mudança da menção do candidato favorito em março para o seu escolhido em outubro, assim como aqueles que declararam que não votariam em ninguém e, por fim, optaram pelo ex-capitão.

Esses dados nos permitem ponderar também a questão do saudosismo militar como um sentimento sedimentado da população brasileira. Ainda é cedo para dizer que o Brasil é hoje um país com tais sentimentos predominantes. A queda nos índices ilustrados pelo IBOPE nos mostra que a realidade pode ser o melhor remédio para matar a saudade de um tempo que já deveria ter ficado pra trás.

Notamos que a excentricidade contextual da eleição de 2018, com a prisão do líder das pesquisas e a facada no candidato da direta, contribuíram para aquilo que tem sido chamado a “tempestade perfeita” para a explicar a vitória do líder da extrema direita no Brasil.



Carolina de Paula

É doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ, Diretora Executiva do DataIESP e pesquisadora sênior do NECON (Núcleo de Estudos Sobre o Congresso). Foi consultora da UNESCO, coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, com atuação em campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Escreve mensalmente para o IREE.

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