Quando acreditar basta – IREE

Colunistas

Quando acreditar basta

11 de fevereiro de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



A Samantha, minha companheira de trabalho, comentou comigo que tinha assistido novamente ao filme “A Dúvida”. Nele, uma freira passa a suspeitar que um padre tenha abusado de um aluno. Não há prova material, confissão ou testemunha direta. O que existe são sinais.

Spoiler a partir daqui.

O final do filme não resolve nada. Não sabemos se o abuso aconteceu. O padre é transferido, a instituição se rearranja e a freira, que sustentou a acusação, admite que também duvida. Não do que percebeu, mas do peso de agir sem conseguir provar. O filme termina exatamente onde, na vida real, costumamos travar: no ponto em que a ética exige uma decisão, mas a prova não vem para nos proteger dela.

A situação do filme não é exceção. A vida está cheia de acontecimentos que não deixam vestígios. Experiências que não produzem materialidade, violências que não viram registro, verdades que existem apenas na percepção de quem as viveu ou de quem soube ler o ambiente.

O problema é que entramos em uma era em que a ausência de prova deixou de gerar cautela e passou a ser preenchida pela certeza performada. Nas redes, não vence quem prova, vence quem afirma com mais segurança, quem fala mais alto, quem repete melhor ou quem produz mais engajamento.

 

 

A lógica deixou de ser “isso aconteceu?” e passou a ser “isso faz sentido para mim?”. A prova foi substituída pela identificação, e a dúvida virou fraqueza ou, pior, falta de caráter. Qualquer hesitação soa como suspeita. Ter certeza virou um valor em si, mesmo quando essa certeza não se sustenta em nada além de sensação, recorte e algoritmo.

É exatamente aí que as redes passam a operar de forma perigosíssima. Elas não produzem fatos, produzem convicções. Alimentam certezas emocionais, reforçam vieses e constroem realidades paralelas onde a falta de prova não importa, desde que a narrativa seja coerente com aquilo que já acreditamos ou desejamos acreditar.

O efeito disso não é apenas confusão cognitiva. É político, social e institucional. Decisões passam a ser tomadas com base em certezas emocionais. Reputações são destruídas ou blindadas não pelo que se consegue demonstrar, mas pela força da narrativa que prevalece. A justiça vira espetáculo e, paradoxalmente, a exigência de prova reaparece de forma seletiva, justamente quando a verdade ameaça crenças ou interesses.

Exigimos materialidade absoluta para aquilo que não queremos reconhecer e aceitamos certezas vazias quando elas confirmam o que já pensamos. A dúvida, que deveria funcionar como freio, passa a ser tratada como obstáculo a ser eliminado.

É isso que o filme “A Dúvida” expõe de forma silenciosa e profundamente desconfortável. Existe um abismo entre saber algo no plano ético e conseguir provar algo no plano objetivo. Mas há outro abismo, igualmente perigoso, entre acreditar fortemente em algo e transformar essa crença em verdade incontestável. Confundir esses dois planos é o que nos empurra, ora para a omissão covarde, ora para a violência travestida de convicção.

No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja apenas se a certeza que você carrega vem de algo que aconteceu ou de algo que te convenceram a acreditar. Talvez a pergunta seja mais incômoda ainda: em que momentos você escolheu a certeza porque duvidar exigiria abrir mão de algo que te conforta?



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

Leia também