Qual será a alternativa a Bolsonaro? – IREE

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Qual será a alternativa a Bolsonaro?

Letícia Chagas

Letícia Chagas
Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto



Na primeira semana de janeiro, o Brasil comemorou a divulgação da eficácia da vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantã em conjunto com a Sinovac. A notícia, acompanhada do pedido de registro emergencial junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), representa um avanço em direção à superação da pandemia, bem como o anúncio de um novo tempo na vida de todas as brasileiras/os. Mas outra tarefa se impõe determinante para nosso país: a construção de uma alternativa ao governo Bolsonaro.

O caráter conservador e autoritário de Bolsonaro tem gerado uma política genocida à população brasileira. O descaso com que o presidente lida com a pandemia tem provocado milhares de mortes através da minimização das consequências do vírus e da desarticulação do Ministério da Saúde.

Ademais, Bolsonaro tem buscado descredibilizar imunizantes, e é possível que, por isso, milhares de brasileiros não queiram se vacinar. Diante da inércia de Rodrigo Maia para articular um processo de impeachment, construir um caminho para a derrota de Bolsonaro em 2022 se impõe uma tarefa cada vez mais urgente.

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Diversos nomes vêm buscando se consolidar enquanto uma alternativa. Em São Paulo, João Dória se utiliza do desenvolvimento da Coronavac como capital político para sua candidatura. Além disso, nomes como o de Ciro Gomes e o de Luciano Huck também tentam se consolidar no debate público, enquanto o PT insiste no nome de Lula como presidenciável.

Diante de tantos candidatos, alguns setores têm defendido a realização de uma frente ampla para derrotar Bolsonaro. Embora esta seja uma importante proposta a ser debatida, acredito que a derrota de Bolsonaro deve estar atrelada a um outro projeto de país. Assim, devemos debater qual é efetivamente o Brasil que queremos com sua derrota.

Nesse sentido, é sintomático que em um país de maioria feminina e negra, as alternativas a Bolsonaro sejam apenas homens brancos. Mais que isso: homens brancos atrelados a elites políticas e econômicas, como é o caso de Ciro Gomes, João Dória e Luciano Huck.

Alguns desses nomes buscam se consolidar em busca de um projeto pessoal de poder, não necessariamente de um país diferente ao que almeja Bolsonaro. Dória, por exemplo, foi forte apoiador do presidente em 2018 e continua a apoiar algumas de suas iniciativas: na mesma semana em que com orgulho anunciou a eficácia da Coronavac, Dória aderiu ao programa federal de militarização de escolas públicas.

Assim, muito embora Lula seja o principal acusado de impedir uma frente ampla, me pergunto se qualquer um desses candidatos abriria mão de suas candidaturas em prol de um projeto de país mais participativo e menos desigual. Temo que não. Aqui, a aliança possível é a da branquitude pela manutenção de seu poder.

A despeito de eu considerar Lula um caso distinto, tampouco acredito que ele seja a alternativa para 2022. A insistência do PT em manter sua candidatura demonstra um erro que partidos que se proponham populares não deveriam cometer: se apoiar em personalismos em detrimento de um projeto político.

A esquerda deveria estar disposta a trazer novas pessoas para pensar e para fazer política; deveria almejar o surgimento de novas lideranças, porque a política tem de ser algo acessível a todas e a todos. É questionável, portanto, que um partido histórico como o PT não tenha formado outras lideranças possíveis.

Deste modo, se queremos derrotar Bolsonaro, precisamos combatê-lo não apenas no discurso, mas também na prática. Devemos combater seu projeto econômico e ideológico, que reiteradamente prega o ódio às minorias sociais.

E é impossível pensar neste novo projeto descolado dos movimentos sociais e das classes populares, tampouco com uma agenda neoliberal. E também não é possível construir um novo país através da manutenção da exclusão negra dos espaços de decisão.

Não devemos, por isso, nos contentar com as “alternativas” políticas a Bolsonaro hoje situadas no debate público. Defender uma frente ampla não implica em compactuar com projetos de autopromoção, como me parece o caso de Dória e Huck, tampouco em promover a manutenção de velhos quadros políticos no poder, à exemplo de Ciro Gomes e Lula.

Se queremos derrotar Bolsonaro, devemos construir uma frente em torno de um projeto que ainda não está colocado nas atuais apostas para 2022.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Letícia Chagas

Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto. Graduanda em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Programa de Educação Tutorial (PET) Sociologia Jurídica.

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