Qual feminismo queremos? Um diálogo com bell hooks – IREE

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Qual feminismo queremos? Um diálogo com bell hooks

Letícia Chagas

Letícia Chagas
Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto



Essa semana, participei do primeiro encontro de um grupo de leituras feministas, o “De mina pra mina: lendo juntas”. A iniciativa é organizada pelo Coletivo Juntos e tem por objetivo criar um espaço (por enquanto, virtual) em que mulheres possam se reunir para ler e debater livros de temática feminista. Foi um encontro potente e acolhedor, o que é especialmente importante em um cenário pandêmico, marcado pela distância e frieza de um momento tão difícil em nosso país.

Na semana de estreia, lemos o livro “O feminismo é para todo mundo”, de bell hooks. Neste livro, hooks afirma a necessidade de disputar a narrativa feminista hoje predominante em nossa sociedade. De acordo com ela, a visão feminista presente nos grandes veículos de comunicação é de um movimento anti-homem, centrado nas pautas e narrativas de mulheres brancas das classes dominantes, o que afasta do debate grande parte da população.

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Ao contrário disso, hooks propõe um feminismo revolucionário, engajado não apenas na luta contra o sexismo como também contra todas as formas de dominação, à exemplo do racismo e do imperialismo. Para isso, é necessário atuar para a conscientização de mulheres e homens, criando materiais didáticos acessíveis, que demonstrem que o “feminismo é para todo mundo”, como afirma o título do livro.

Ao fazer isso, hooks demonstra sua genialidade e cuidado: muito embora ela seja uma acadêmica, compreende os limites do discurso promovido neste espaço. Hooks é também uma mulher negra da classe trabalhadora, e por isso busca fazer do feminismo uma teoria mais acessível, apresentando seu conhecimento de forma descomplicada.

No mês de março marcado pela impossibilidade de manifestações de rua, discutir qual é o feminismo que queremos ganha ainda mais relevância. Considerando que nossa visão teórica interfere diretamente sobre nossas ações, devemos organizar atuações tendo como centralidade a luta contra o projeto de governo que representa Jair Bolsonaro. E, para isso, é preciso disputar a narrativa bolsonarista, combatendo um projeto que aposta na desinformação e no discurso de ódio.

Devemos, portanto, promover um movimento feminista de massas e intersseccional, que acolha as demandas de mulheres negras, amarelas, indígenas, travestis, evangélicas e tantas outras. Essas demandas envolvem o combate ao projeto bolsonarista: a luta por um auxílio emergencial efetivo, por vacinação e contra a facilitação do acesso à armas de fogo – que podem promover um aumento nos casos de feminicídio.

Espaços de leitura coletiva, como o que participei, são um importante instrumento para esse processo. Devemos criar cada vez mais locais abertos ao diálogo, construídos coletivamente e sobre uma práxis – ação e prática – transformadora.

Nossos trabalhos de leitura devem também se refletir em uma outra prática feminista, que se alie às demandas de mulheres trabalhadoras e que esteja presente nas diversas lutas de nosso tempo, como as lutas por moradias populares, por educação de qualidade e por vacina para todas e todos.

Embora este ano não possamos sair às ruas para o dia 8 de março, devemos nos preparar para, muito em breve, sermos linha de frente para a derrubada deste governo.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Letícia Chagas

Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto. Graduanda em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Programa de Educação Tutorial (PET) Sociologia Jurídica.

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