2 de março de 2026
O ano era 2018. O Brasil vivia uma série de desastres sociais profundos. O homem que assaltou o cargo de presidente da única mulher a ocupar esse posto ultrapassava seu segundo ano de um mandato criminoso; o Partido dos Trabalhadores mergulhava em uma crise de representação da qual ainda não emergiu; um dos homens mais sujos da política brasileira vencia nas urnas eleitorais, dando início a um dos mandatos mais criminosos pós-Constituição de 1988; em 14 de março, a vereadora Marielle Franco seria covardemente assassinada, fazendo do país um espetáculo a céu aberto de protestos e romarias; oito meses depois, em meio a um mundo cada vez mais caótico, perturbado e mais negro, das periferias do ABC nascia a banda de punk rock Punho de Mahin.
Formada por quatro integrantes negros — Natália Matos na voz, Camila Araújo na guitarra, Du Costa no baixo e Paulo Tertuliano na bateria —, a banda assumiu posição de enorme destaque no cenário brasileiro, dada a sua alta qualidade artística incontestável. O nome surgiu quando as mulheres da banda decidiram por algo que não se aprendia na escola; aí chegaram a Luiza Mahin, uma mulher negra de nação nagô, dedicada à conquista da liberdade contra a escravidão que enfrentou nas ruas da Bahia do século XIX. No palco, a banda Punho de Mahin dá uma lição de história, performance e sinergia negra, radical, do quarto de despejo, quatro Carolinas de Jesus escrevendo e escrevendo e escrevendo uma nova história ou, quem sabe, a história — mais real, mais a cara da maioria do povo brasileiro — do punk rock nacional.
Na qualidade de músicos, é excepcional o dinamismo, o entrosamento e a reinvenção proposta por esses quatro artistas. Quando Natália Matos canta, estão lá as últimas preces de Mãe Bernadete, das Mães de Maio, do Gantois. E quando toca o seu agogô, acontece todo um rearranjo musical que só poderia ser feito porque são pretos. Aqui eles “obedecem”, transgridem e reescrevem as regras do jogo. O baixo de Du Costa torna-se um berimbau como nas mãos de um capoeira angola; a bateria de Paulo Tertuliano, em segundos, converte-se em uma nação de alfaias; na guitarra de Camila Araújo, o trio elétrico de Dodô e Osmar.
Com músicas como “Madame Satã”, “Grito Quilombo” ou “Marcus Vinicius da Maré”, eles apresentam pontos de vista críticos “novos” ao movimento, embora sejam o desafio racial e a questão negra os problemas mais antigos do Brasil. Isso evidencia que a música punk, na maior parte de sua trajetória, não tenha ido fundo na raiz dos problemas sociais aos quais se opunha. Embora de origem periférica e negra, o gênero musical, paulatinamente durante sua história e principalmente por conta dos grupos que conquistaram os meios de comunicação, teve a imagem do negro e o próprio gênero sistematicamente apagados da cultura. Tanto é o estranhamento ao ver uma banda punk formada totalmente por pessoas negras que, não raramente, são rotulados como “AfroPunk”, como uma manifestação particular, aquém e divergente do que seria o próprio movimento. É como se fizessem qualquer coisa que diz respeito somente às pessoas negras, e não ao Brasil. Imenso equívoco: é por ocuparem essa posição que são o ponto mais alto – e crítico – a que o punk rock poderia chegar.
Punho de Mahin atua mais como uma verdadeira ruptura com o passado embranquecido do punk rock do que como uma continuidade do gênero. Surgiram em um momento muito distinto dos anos 70/80, quando vigoraram figuras icônicas da cena musical. Neste caso particular, a banda pertence a toda uma onda negra que desencadeou o aparecimento de diversos outros artistas pretos no Brasil e no mundo. Sobreviventes de um processo transatlântico mal-sucedido, pois aí estão, livres e vivos, reformulando não somente o punk rock, mas a cultura nacional como um todo.
No dia 25 de fevereiro de 2026, os assassinos de Marielle Franco foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal, oito anos após a tragédia. Coincidentemente, dois dias após a sentença, a Punho de Mahin lança o álbum “Entre a Penitência e a Ruptura”, anunciado há semanas para essa data. Mais artístico, mais político, mais pedagogicamente agressivo, mais feminino e mais negro. Nessa condição, Marielle Franco e Punho de Mahin encontram-se novamente.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Diego Jandira
É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.
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