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Procure na minha música saber o meu nome

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Se Alaíde Costa decidisse encerrar hoje seus longevos 69 anos de carreira dedicados à música, além da contribuição como cantora, compositora e intérprete, ficaria para nós uma imagem de guerreira incansável, incompreendida no seu desejo de manter sozinha um estilo musical próprio, condenada a uma história de rejeição por parte da turma da bossa nova. Compreender assim os fatos mais enaltece seus detratores do que privilegia qualquer caminho de ciência sobre o que Alaíde Costa realizou – e realiza – nos palcos do Brasil e do mundo.

O despertar artístico veio ainda na infância, e o impacto do seu canto ao redor fez com que a menina fosse incentivada a participar de programas de calouros ainda muito cedo, nos quais ela mesma se inscrevia. Na sua mocidade, ganhou destaque no período áureo dos boleros quando cantou a música “Tarde Demais”, composição de Hélio Costa e Raul Sampaio, chamando a atenção de Aloysio de Oliveira, aquele mesmo que duas décadas depois produziria o icônico álbum Elis & Tom.

Teve como inspiração Neusa Maria, cantora paulista que alcançou reconhecimento entre as décadas de 1940 e 1950, mas que acabou caindo em esquecimento a partir dos anos 1960, onde deu por encerrada sua carreira. Contudo durou o tempo necessário para que influenciasse o gênero musical de Alaíde Costa, uma música de andamento grave, uma voz esteticamente súplice, mais relacionada ao que Nova York possa ter produzido de cantoras de Jazz até os anos 1950, somado ao aspecto de “câmara” que a timidez de Alaíde imprime às interpretações.

Quando gravava nos estúdios da Odeon seu segundo 78 rpm, despertou o interesse de João Gilberto pelo jeito particular de cantar, e dele recebeu um convite por intermédio de seu produtor para participar das reuniões musicais que alguns jovens estavam promovendo. Neste exato momento de sua vida, existe toda uma série de pontos de vista imbuídos em parte de ressentimento e de verdade sobre o racismo que teria Alaíde Costa sofrido, sendo excluída paulatinamente do núcleo e da história do grupo. Dois viajantes em uma mesma estrada não seguem necessariamente o mesmo caminho. A música de Alaíde Costa e a chamada bossa nova são parônimas. A narrativa de exclusão, como um tiro pela culatra, acaba acentuando a sua trajetória em um terrível lugar de inadequação: aquela que não teve lugar na bossa nova; aquela que faz uma música difícil demais; aquela que deveria cantar samba; aquela que deveria fazer músicas mais alegres; aquela que não deveria ser ela mesma.

Essa mulher já era uma cantora profissional enquanto a maioria da turma ainda era “amadora” em relação ao meio musical, e seu toar de voz único, aprendido na escola que graduou as nossas maiores cantoras como Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso e Elza Soares, a escola das ruas, da vida, a distanciou do movimento bossa novista. Desde o início havia a intenção de construir sua carreira com repertório e estilo musical próprios, e ao escutarmos desde seus primeiros trabalhos até os mais recentes, percebemos a evolução da voz e da música na sua beleza estética complexa, a diversidade de gêneros aos quais dá a sua moldura pessoal e, como ela, templo vivo, preserva e refaz com gênio a obra de Johnny Alf, esteta da música brasileira.

Escondida na estética de um canto por vezes quase esganiçado na sua harmonia, escutamos um pouco da desilusão com o ideal de um país melhor que, mirando voo rumo à igualdade e desenvolvimento social, viu-se forçado a ancorar por longos 21 anos. Alaíde Costa sentiu na pele a censura de sua música e, não se exilando, enfrentou as perseguições aos artistas no período militar.

Durante muito tempo escutou de dirigentes do mercado musical que, por ser uma mulher negra, deveria cantar samba. Esse cuidado em distanciar pessoas negras de músicas com caráter melancólico ou triste – onde residiriam os sentimentos profundos – era também uma forma de associar o negro à puerilidade contida na alegria e as consequentes inconstâncias do sentimento: a pessoa negra não poderia expressar amor ou qualquer camada mais densa de humanidade.

Buscando manter uma carreira musical sem a interferência de produções comerciais, pagou com dinheiro do próprio bolso parte de seus discos. Assim criou muitas inimizades no meio artístico, o que lhe rendeu críticas negativas em jornais, portas fechadas nas rádios, eventos e em casas de música. Mesmo com dificuldades em seu caminho naquelas mais de duas décadas de ditadura, não se dobrou e manteve impecável a qualidade estética e do gosto musical em seus álbuns, ao menos 11 nos períodos que vão de 1959 até 1987.

Em seus álbuns recentes, Alaíde Costa confirma o caráter seguro, solene, sábio e delicado do seu estilo, sustentando o elo entre gerações distintas, entre o público e os compositores que adentram e permanecem no seu repertório, e entre o tempo presente e as mais de oito décadas de Brasil, que certamente irá encontrar na sua música o seu nome, e um dos caminhos mais seguros e belos para a soledade.



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Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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