Procura-se Wilson Simonal de Castro: Desaparecido desde 1971 – IREE

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Procura-se Wilson Simonal de Castro: Desaparecido desde 1971

15 de fevereiro de 2025

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



As memórias póstumas de muitas pessoas que viveram os 21 anos de ditadura militar no Brasil ainda precisam ser passadas a limpo. Será necessário tirar o pó de velhos cômodos, mudar de lugar antigos móveis da história e, quem sabe, encontrar, entre os despejos de esperanças e de justiça pelos mortos e desaparecidos do sistema, outros assassínios insolúveis daquele tempo, como o caso das reputações. Assim como a repatriação de bens e artefatos culturais e históricos que vem sendo feita para os países africanos saqueados pelas nações europeias de outrora, precisamos fazer esse mesmo movimento de olhar para trás, entender por que perdemos, como o perdemos e o que ainda podemos reivindicar do que nos foi tirado.

Quando Wilson Simonal de Castro nasceu, quase às cinzas do Carnaval carioca, em 23 de fevereiro de 1938, no bairro Cidade Nova, no Rio de Janeiro, a cidade iluminava-se com a efervescência política e cultural que naquele período chegava aos ouvidos pela consolidação definitiva do rádio, tanto para o uso das propagandas do “Estado Novo” de Getúlio Vargas, quanto pelas canções populares que migraram das noites de serestas para dentro das casas dos brasileiros. Aliás, música e política seriam dois elementos fundamentais no destino de Simonal.

O interesse pela música surgiu ainda garoto, quando ganhou o apelido de “O Americano”. Isso porque subiu em um palquinho montado em um parque de diversões próximo à sua casa e cantou a música “Day-O (The Banana Boat Song)”, uma canção caribenha que ficou conhecida na voz de Harry Belafonte, cantor que o inspirava. O primeiro instrumento que aprendeu foi o violão, e, aos poucos, desenvolveu a habilidade de passar aqueles acordes aprendidos nas cordas para as teclas do piano. Mas aqui o que nos interessa realmente são alguns aspectos da carreira do Simonal que se desenrolam bem mais à frente, quando já é um showman consagrado em idos da década de 1960 e 1970, e dentro do contexto da ditadura militar.

Nos anos 60, no momento em que a tensão racial nos Estados Unidos atingia seu ponto máximo nas ruas de Nova York, Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli compuseram a música “Tributo a Martin Luther King”. Não deixando de ser também um ponto de vista sobre os acontecimentos vivenciados por Simonal, em vez de um arranjo denso, intuído pelo peso da letra, o cantor surpreendeu exigindo um ritmo dançante, que colasse no corpo e na mente do seu público, que nessa época já se constituía como uma espécie de coral de “canto orfeônico”, comparável às multidões que Villa-Lobos reunia sob sua regência no estádio do Maracanã.

Para compor a canção, Simonal se imaginou em uma conversa com o líder negro estadunidense, na qual o aconselharia a persistir, apesar das perdas ao longo do caminho: “Cada negro que for, mais um negro virá para lutar, com sangue ou não, com uma canção também se luta irmão, ouvir minha voz…”. A música seria lançada em 23 de fevereiro de 1967, quando o cantor completava 29 anos de idade. Ao ganhar as rádios, a música foi imediatamente censurada, e Simonal teve que comparecer por quatro meses à delegacia de polícia do DOPS para dar depoimentos sobre aspectos “subversivos” contidos na letra.

Mesmo sob censura, ele cantou a música em rede nacional na TV Record, o que se tornou uma mensagem pública de que Wilson Simonal tinha uma causa política. Sua capacidade única de despertar um imenso carisma na massa, chegando ao ponto mesmo de controlá-la e regê-la, somada às suas opiniões sobre os problemas enfrentados pelo negro no Brasil, fazia dele um dos artistas mais vigiados pelo período militar.

Quatro meses depois, por conta de uma passeata organizada pela mesma emissora para promover um novo programa de música brasileira, que acabou ficando conhecida como a “Passeata contra a guitarra elétrica”, Simonal seria fichado pela polícia por ser a figura que provavelmente estaria por trás de um ato que “colocava em risco a hegemonia do sistema”, mesmo que o cantor não tenha participado da manifestação e nem ao menos apoiado quaisquer ideias.

O que sabemos é que a grande reviravolta da vida de Simonal foi o que aconteceria em um prédio do DOPS no centro do Rio de Janeiro em agosto de 1971, onde o escriturário Raphael Viviani, ex-funcionário do cantor, seria forçado sob tortura a confessar um desvio no caixa da empresa “Simonal Produções Artísticas”. Sabemos também que em uma tentativa de esclarecer à imprensa a proximidade de agentes do governo com um músico popular, o artista teria assinado documentos em que se poderia ler linhas como “colaboração com informações ao DOPS…”.

O caso do ex-funcionário Raphael Viviani encerra a imagem de Wilson Simonal na memória coletiva brasileira como um traidor, digno do chamado primeiro cancelamento de uma figura pública no país. O tamanho de seu talento não amorteceu em nada a velocidade e força de sua queda. E no dia 26 de junho do ano 2000, aos 62 anos, Wilson Simonal de Castro iria morrer por complicações renais, decorrente da depressão e do uso abusivo de álcool. Encolhido nas poltronas mais escuras e distantes do palco, Simonal acompanharia o início da carreira de seus filhos evitando ser visto e ter seu nome relacionado ao deles. Como em tragédias que só a arte saberia compor, a maior voz do Brasil de seu tempo agora deveria ficar em silêncio “para o bem geral” e permanecer longe dos ouvidos e olhares do espetáculo.

De toda a sua controvertida história, chama-me a atenção a certeza que todos sempre tiveram de que, em depoimento fechado em uma sala junto aos ditadores, sob pressão dos mesmos torturadores e assassinos a serviço do sistema em vigor e auge naquele momento, Simonal poderia ter a escolha livre e espontânea de apresentar uma posição contrária a toda a repressão que acontecia diariamente na vida brasileira. Como um regime acusado de falsear, ocultar, mentir, queimar, reescrever e reeditar capítulos importantes das nossas vidas e de nossa história passou, neste caso, a dizer a verdade sobre tudo o que apresentava a respeito de Simonal? Como um regime conhecido por fabricar documentos e notícias pode, neste caso, ser justo e estar incondicionalmente do lado da verdade?



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Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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