Preta Gil – IREE

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Preta Gil

21 de julho de 2025

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Quando foram ao cartório registrar sua filha, Gilberto Gil e Sandra Gadelha ouviram que não poderiam registrar o bebê com o nome que sugeriram, pois não seria um nome adequado a uma pessoa. Imediatamente, entendendo a situação que se passava, Gil argumentou com muita naturalidade que o cartório já havia registrado diversos nomes como Branca, Clara, e que o nome de sua filha em nada diferenciava-se dessas situações. O registro só pôde ser feito caso fosse seguido de um nome católico, ao que o bebê chamou-se Preta Maria. Desde então, superar desafios seria uma marca profunda na sua vida que, naquele momento, só se iniciava.

Preta Maria Gadelha Gil Pereira. Assim chamava-se Preta Gil (1974–2025), que vinha lutando contra as complicações de um câncer que, por fim, levou a artista aos apenas 50 anos de idade. A passagem de uma das figuras mais icônicas da cultura pop brasileira pelo planeta Terra foi marcada sempre pelo seu carinho, seu carisma e sua alegria, características indissociáveis da figura que construiu para si.

Ao longo de sua trajetória, colecionou diversos episódios considerados polêmicos, em sua maioria dividindo opiniões tanto do público quanto de seus próprios familiares. Em 2003, por exemplo, quando se lançou como cantora com o álbum Pret-à-Porter, na capa – que rendeu milhares de noticiários – Preta exibia seu corpo nu. Para grande parte da imprensa e do público da época, a atitude foi vista como um exagero, uma maneira apelativa de chamar a atenção para o seu trabalho.

As críticas preconceituosas ao seu corpo revelaram a enorme onda de conservadorismo que existia silenciosa até aquele momento. Hoje, uma atitude como a que a artista tomou há 22 anos seria totalmente apoiada e festejada como pertencente à luta pela liberdade de expressão e pela valorização da beleza da mulher negra. Desafio que Preta enfrentou sozinha naquele momento. O que nascia publicamente ali era uma atitude de empoderamento que a artista manteria por toda a sua vida, inclusive nos momentos mais críticos de sua saúde recente.

Outro momento impactante, agora em 2011, foi quando Preta manifestou-se contra a fala do então deputado federal Jair Bolsonaro, que, em uma entrevista para o programa CQC, da TV Bandeirantes, deu uma declaração racista imediatamente enfrentada pela cantora. No quadro “O povo quer saber”, Preta Gil perguntou a Bolsonaro como seria sua reação caso um de seus filhos se relacionasse afetivamente com uma mulher negra. A resposta foi a de que a educação dada aos filhos do deputado nunca os levaria à condição de se relacionar com uma mulher negra e viver em um ambiente de “promiscuidade”. Na ocasião, a resposta chocou grande parte da sociedade e também a artista, que o processou e venceu a questão judicial por danos morais em 2019.

Uma vez, Preta Gil foi convidada para falar sobre o feminismo negro no Teatro Castro Alves, em Salvador. Nessa ocasião, ela começou a discorrer sobre diversos momentos de sua carreira, até que, vindas do fundo do teatro, as vaias da plateia invadiram a sua apresentação. A artista não entendeu de imediato o que havia ocorrido e, ao questionar a situação, soube pela mediadora da palestra que o público teria de ofendido com o termo que usou: a palavra “mulata”. Após algum momento de furor e o pedido de desculpas por parte da cantora, a palestra dava seguimento quando a palavra “denegrir” surgiu em seu discurso, o que foi seguido de vaias tão alarmantes quanto as da primeira vez. Diante da situação de visível constrangimento, Preta começou a questionar em “qual mundo estava vivendo?”, questionar as relações que vinha nutrindo e que não a alertaram para aqueles novos posicionamentos que estavam sendo feitos ali bem na sua frente.

Ao retornar, Preta quis aprender com o pai quais eram as lutas e dificuldades que ele havia travado em sua vida por causa das questões de cor. Gil respondeu que o direito à inclusão nos mais diversos ambientes, o direito de ir e vir para onde quisesse e de cursar uma universidade eram as pautas mais fortes pelas quais dedicou suas energias. Preta havia entendido, naquele momento, que as vitórias de Gil e de muitos outros contra o racismo resultavam ali, diante dela, na liberdade e nas escolhas que pôde fazer em sua própria trajetória.

Entendeu que, mesmo com tantas contradições, seu lugar era o mundo, e que, graças a essa tamanha liberdade herdada do pai, sua passagem pela vida não seria marcada pelos sofrimentos que o preconceito traz, mas sim pela plenitude e pelo vigor da alegria de uma mulher negra.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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