Precisamos falar sobre o “pacote da destruição” – IREE

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Precisamos falar sobre o “pacote da destruição”

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



É interessante como muitas vezes uma catástrofe tem o poder surpreendente de unir as pessoas. No momento da tragédia vemos frequentemente uma resposta humana extraordinária de solidariedade e cooperação: vizinhos se ajudam, desconhecidos se tornam aliados e a comunidade como um todo se une em prol de um único objetivo que é o de superar o momento de crise. Também é nesse momento que as diferenças sociais e políticas tendem a se tornarem menos importantes, já que todos se concentram no que os unem. No entanto, é importante reconhecer que nem todas as catástrofes têm o mesmo efeito. Algumas podem agravar divisões já existentes, e isso depende muito do contexto social e político locais.

Hoje vivemos um momento de crise no Brasil, mais precisamente no Estado do Rio Grande do Sul, devastado pelas trágicas chuvas dos últimos dias. Diante de tamanha destruição consigo identificar um movimento solidário e de cooperação que une as pessoas com o mesmo fim, o de ajudar, mas também é impressionante o número de desinformação e teorias conspiratórias trazidas por pessoas que apenas exploram a tragédia, como por exemplo, os negacionistas do aquecimento global, que rejeitam a ideia de que o aumento das temperaturas seja causado principalmente pela atividade humana, como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento.

E é sobre isso que precisamos falar, sobre a negação do aquecimento global e sobre um perigo que ronda Brasília, a tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado, de pelo menos 25 projetos e três propostas de emendas constitucionais (PECs) que flexibilizam leis e regras ambientais para facilitar a expansão do agronegócio em TODOS os biomas brasileiros. Sim, vocês não leram errado, no meio de uma das maiores tragédias brasileiras, um pacote de medidas conhecido como “pacote da destruição” está em andamento no Congresso, tendo como suas principais propostas criar regras mais brandas para exploração florestal, mineral e hídrica. Uma delas, que foi pautada para votação semana passada, pretende a redução de reservas na Amazônia em aproximadamente 281,6 mil quilômetros quadrados de floresta, o que equivale ao território do Rio Grande do Sul (PL 3334/23, do ruralista Jaime Bagattoli PL-RO).

Por razões óbvias, todas essas propostas vão na contramão de tudo que os cientistas entendem como nocivo ao meio ambiente, o potencial destrutivo do “pacote” não pode ser negligenciado por cidadãos que têm se demonstrado caridosos e solidários. É preciso entendermos que o aquecimento global é real, está ocorrendo em ritmo acelerado devido à atividade humana e representa uma séria ameaça ao planeta. O estrago que já causamos precisa ser mitigado e não podemos aceitar que interesses financeiros ou que liberais radicais acabem induzindo pessoas a negarem algo que está comprovado.

Espero que essa inundação histórica faça com que os brasileiros e brasileiras se preocupem mais com a questão ambiental, somos um país megadiverso e com a maior riqueza natural, mas que derruba florestas e que tem inúmeras espécies ameaçadas. Se não houver uma mobilização de toda sociedade, tanto civil quanto da classe política, com o passar dos anos, as tragédias serão ainda maiores. Sem a sustentabilidade e sem grandes programas de restauração florestal, não haverá futuro.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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