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Precisamos de um prefeito com experiência

Letícia Chagas

Letícia Chagas
Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto



Na disputa eleitoral para a Prefeitura de São Paulo, tem sido recorrente a acusação de que faltaria ao candidato Guilherme Boulos a experiência em gestão pública, dado que ele nunca exerceu um cargo eletivo. Até mesmo o Estadão se prestou a publicar um editorial convocando seus leitores a votarem em Bruno Covas, pois São Paulo precisaria de um prefeito com os “pés no chão”, o que implica em um prefeito com experiência.

De fato, Covas já é figura política antiga. Já foi deputado estadual, federal, vice-prefeito e prefeito. A carreira política, para ele, parece sempre ter sido uma possibilidade: seu avô, Mário Covas, já foi até governador do estado, então é coisa de família. Mas, a despeito de tudo isso, não é a experiência administrativa que deveria ser determinante para que os paulistanos definam seus votos neste domingo.

Até porque, experiência administrativa não é sinônimo de boa gestão. Há diversos eleitos de “primeira viagem”, tanto no executivo quanto no legislativo, que podem fazer um ótimo trabalho. Assim como há “políticos profissionais” que são grandes incompetentes, a exemplo de nosso próprio presidente.

Mas, para além disso, o argumento de que só pode ser prefeito quem já teve experiência com cargos eletivos é reflexo direto da tese de que só alguns poucos têm a capacidade de governar. É a defesa dessa “experiência administrativa” que cria a ideia de que as classes populares devem ter seu papel na democracia relegado ao voto, enquanto as decisões importantes devem ser tomadas pelos “profissionais da política”.

Entretanto, se queremos uma sociedade cada vez mais democrática, é necessário que a política deixe de ser pensada enquanto uma tarefa de “profissionais” e passe a ser o que é: algo que faz parte da vida de todos nós, que têm reflexo direto sobre nossas escolhas e oportunidades e que deve ser acessível a todos.

Isso, porém, não significa que Guilherme Boulos seja um prefeito inexperiente. Ao contrário, é dotado de uma experiência que é impossível de ser vivida por um político profissional apartado das lutas populares: a experiência democrática.

Enquanto líder do MTST, Boulos atuou à frente de um movimento que é construído a muitas mãos. Fez parte de uma luta coletiva por moradia e dedicou a sua vida a isso, a despeito de cargos na política institucional. Atuar em um movimento social como esse dá a Boulos a experiência em atuar politicamente com aqueles que são historicamente excluídos da esfera pública. Dá a ele a humanidade em vê-los enquanto sujeitos políticos, a despeito de não serem “profissionais”. É fazer política com as pessoas, não para as pessoas.

A própria campanha eleitoral de Guilherme Boulos têm sido reflexo de sua experiência com a escuta e o diálogo. Boulos têm se proposto a dialogar com diversos setores da cidade, não se furtando a responder críticas de forma acessível e transparente. Além disso, sua campanha tem sido construída nas ruas, por pessoas que não ganham dinheiro algum para isso, mas que o fazem por acreditarem em um outro projeto de cidade e na importância do diálogo com a população.

Como um dia escreveu Paulo Freire, um de meus autores favoritos, é impossível “dar aulas de democracia e, ao mesmo tempo, considerarmos como ‘absurda e imoral’ a participação do povo no poder”. A experiência administrativa Boulos irá adquirir com o tempo, em um mandato que, apesar de tê-lo enquanto chefe do executivo, será construído também a muitas mãos, assim como tem sido coletiva todas as suas lutas até aqui. Não precisamos de um “político profissional”; precisamos de um prefeito experiente com a democracia.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Letícia Chagas

Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto. Graduanda em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Programa de Educação Tutorial (PET) Sociologia Jurídica.

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