Portos italianos: avanço das máfias e combate – IREE

Análises e Editorial

Portos italianos: avanço das máfias e combate

24 de abril de 2026

A Libera, uma rede de associações da sociedade civil italiana engajada no combate às máfias. apresentou a terceira edição do relatório “Diário de Bordo: Histórias, dados e mecanismos das projeções criminosas nos portos italianos e no exterior” no dia 21 de abril de 2026, em Florença. Para acessar o relatório completo, clique aqui.

O novo relatório lança luz sobre um problema crescente e estratégico: a infiltração do crime organizado nos portos italianos. O documento combina análise de dados, relatos institucionais e propostas para enfrentar um fenômeno que conecta economias legais e ilegais em escala global.

A publicação deste ano é dedicada ao jornalista Michele Albanese, que atuava na região da planície de Gioia Tauro e vivia sob escolta devido às suas investigações sobre a ‘Ndrangheta. Albanese também contribuiu para a primeira edição do Diario di Bordo, com uma análise sobre o porto de Gioia Tauro. Sua morte recente é lembrada como uma perda significativa para o jornalismo investigativo e para o combate às máfias.

 

 

Destaques do relatório

Segundo Francesca Rispoli, copresidente da Libera, o objetivo central do relatório é duplo: denunciar a infiltração mafiosa nos portos italianos e propor soluções concretas. O estudo revela um dado preocupante — a alta permeabilidade dessas estruturas — e destaca a necessidade de investir em prevenção. Para Rispoli, esse esforço deve começar pelas pessoas que vivem o cotidiano portuário: operadores das autoridades portuárias, trabalhadores, sindicalistas e também empresas privadas com acesso a áreas restritas. Outro ponto essencial é criar condições que incentivem denúncias por parte de quem atua nesses espaços.

A base empírica do relatório foi detalhada por Marco Antonelli, responsável pela área universitária da Libera. Os dados foram construídos a partir de uma análise qualitativa de fontes públicas e institucionais, incluindo relatórios da Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo e da Direção Investigativa Antimáfia. Um dos principais achados desta pesquisa é que não existe um padrão único: cada porto apresenta dinâmicas próprias, refletindo as especificidades locais e funcionando como um verdadeiro “espelho da economia nacional e internacional” da Itália.

Ainda assim, alguns números ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, foram registrados 131 casos de criminalidade em portos italianos — um aumento de 14% em relação ao ano anterior. O número de portos envolvidos também cresceu significativamente, passando de 30 para 38, um aumento de 27% do ano anterior. A partir de uma análise do quadriênio 2022-2025, observou-se que os portos com maior número de casos de criminalidade são: Gênova (49 casos), Livorno (42 casos) e Ancona (40 casos).

Máfias ampliam atuação me portos menores

Outro dado relevante é a mudança de estratégia das organizações criminosas. De acordo com o relatório, as máfias estão ampliando sua atuação para além dos grandes portos, passando a utilizar cada vez mais os pequenos portos italianos para suas atividades ilícitas. Isso indica uma adaptação das máfias às formas de controle e fiscalização, ampliando a capilaridade das operações ilegais.

O caso do porto de Livorno ilustra bem essa dinâmica, que pode ter virado um dos principais pontos de entrada da cocaína na Itália. Os dados recentes reforçam essa tendência. Embora o número de casos registrados em Livorno tenha diminuído entre 2024 e 2025, o volume de drogas apreendidas disparou: de 312 kg de cocaína para cerca de 2.500 kg.

Durante a apresentação do relatório, o Procurador-Geral junto ao Tribunal de Segunda Instância de Florença, Ettore Squillace Greco, afirmou que “um colaborador de justiça brasileiro relatou a promotores de justiça de uma Direção Distrital Antimáfia italiana que as organizações criminais italianas decidiram e implementaram uma estratégia de diversificação dos portos italianos no que se refere ao trânsito e ao descarregamento de cocaína. Concretamente, decidiu-se reduzir o uso do porto de Gioia Tauro e aumentar o uso dos portos de Gênova, Livorno e Salerno, sobretudo os dois primeiros”.

Ettore Squillace Greco acrescentou: “A mera apreensão de cocaína realizada pelas autoridades competentes para efetuar a fiscalização nos portos não produz um resultado significativo para o conhecimento do fenômeno do tráfico internacional de cocaína. A apreensão de cocaína nos portos representa um grande resultado quando ao fruto de uma investigação conduzida pelas direções distritais antimáfia e pelas forças policiais italianas. Neste caso, os investigadores sabem antecipadamente que há uma carga de droga naquele navio, pois conhecem o planejamento da viagem – carregamento, trânsito e descarregamento da droga. Dessa forma, é possível identificar de onde partiu a carga e qual era o seu destino, permitindo compreender como atuam as organizações criminosas transnacionais e prender as pessoas que planejaram o transporte internacional da droga”.

Nesse sentido, o magistrado italiano sugere que futuros relatórios passem a diferenciar apreensões decorrentes de operações de rotina de fiscalização daquelas originadas em investigações judiciais aprofundadas, o que ajudaria a compreender melhor a situação dos portos italianos.

Para ampliar a compreensão sobre o tráfico internacional de cocaína, o relatório incorpora a perspectiva brasileira por meio de uma entrevista com o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, que detalha a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e sua infiltração nos portos brasileiros. O Brasil também é tema de um capítulo dedicado à análise do Porto de Santos, com foco nas relações entre a ’Ndrangheta e o PCC, de autoria de Gabriel Patriarca.

Impactos globais

A dimensão global do problema foi destacada por Tommaso Vermigli, diretor do IREE Europa. Ele lembra que cerca de 90% das mercadorias mundiais — legais e ilegais — circulam por via marítima, o que torna os portos pontos estratégicos não apenas para o comércio internacional, mas também para o tráfico de drogas. Como a produção de cocaína está concentrada na Colômbia, no Peru e na Bolívia, o combate ao tráfico desta droga exige necessariamente uma cooperação judiciária internacional entre os Ministérios Públicos e as polícias dos países da América do Sul, do Norte e da Europa para enfrentar o crime organizado transnacional.

Ao reunir dados, análises e propostas, o relatório da Libera evidencia que o enfrentamento ao crime organizado nos portos exige mais do que ações pontuais. Trata-se de um desafio que demanda prevenção, inteligência, tecnologia, cooperação judiciária internacional e participação ativa da sociedade civil.



Por IREE

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