25 de maio de 2026
“Eu sou gay e minha família é conservadora, ela não aceita. Eles tentam me silenciar, me calar…”, disse o médico de 27 anos que foi sequestrado, internado à força e mantido em cárcere por 40 dias no Piauí. Sob o pretexto de tratar dependência química, essa tortura disfarçada da falaciosa “cura gay” prova como clínicas privadas e comunidades terapêuticas são os novos manicômios do nosso tempo, alimentados pelo preconceito familiar e religioso.
No dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, recordamos as milhares de vozes silenciadas através dos séculos, de mulheres, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua, pessoas LGBTQIA+, trabalhadoras do sexo e pessoas em sofrimento psíquico que foram encarceradas por um projeto que jamais foi sobre saúde e sim sobre repressão e exclusão daqueles que não se encaixam na normatividade da nossa sociedade.
Carregamos o peso de uma dor que o Brasil prometeu deixar para trás, mas que continua viva. E apesar de celebrarmos as conquistas históricas como os 25 anos da aprovação da Lei de Reforma Psiquiátrica, um marco legal que institucionalizou enquanto política de Estado o cuidado em liberdade; ou celebrarmos seus efeitos concretos como o fechamento do Hospital Psiquiátrico do Juquery (2021), manicômio que é a pedra fundadora da cidade onde nasci, Franco da Rocha, é passada a hora de encarar que a herança dos velhos hospícios resiste.
Vivemos uma crise de saúde mental sem precedentes. O Brasil é o país com a maior prevalência de depressão na América Latina e vive o maior número de afastamentos do trabalho por ansiedade e depressão em 10 anos. E diante dessa crise, o que avança? A asfixia, a destruição ideológica e física do modelo alternativo de cuidado instituído pela Reforma. O dinheiro público é drenado para longe da rede de atenção psicossocial. O Estado de São Paulo, por exemplo, direciona escandalosos 95% do seu orçamento de políticas sobre drogas para Comunidades Terapêuticas privadas, muitas de viés religioso e com histórico de denúncias por violações de direitos.
O resultado desse desvio é catastrófico: as internações psiquiátricas involuntárias na capital paulista saltaram de 5,8 para 25,5 por cada 100 mil habitantes, um crescimento brutal impulsionado pelo higienismo que tenta limpar as ruas trancando pessoas. Para enfrentar essa violência, é preciso, mais do que nunca, que o orçamento público de todas as esferas governamentais seja direcionado para o avanço da Rede de Atenção Psicossocial e que avancemos contra as Comunidades Terapêuticas.
Também, reconhecendo interseccionalidades, apresentamos na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 130/2025, que cria a Política Nacional de Saúde Mental para Pessoas Trans e Travestis, prevendo ambulatórios multidisciplinares nas capitais. O objetivo é fazer o SUS acolher a população LGBTQIAPN+ com terapia sem julgamentos, respeito ao nome social e sem o medo da discriminação institucional.
É tempo de retomar a coragem daqueles e daquelas que ousaram derrubar os muros dos hospitais, destrancar pessoas de suas celas e expor os horrores dos manicômios desde a década de 70 em nosso país. É tempo de retomar aquilo que o Movimento da Luta Antimanicomial já anunciava desde seu fundamento: o manicômio não é só um lugar, é uma forma de pensar que exclui, enclausura o diferente. O que precisamos neste dia 18 é lembrar que queremos, sobretudo, uma sociedade sem muros.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Erika Hilton
Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.
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