3 de dezembro de 2025
Com as estatísticas alarmantes e a recorrência de casos brutais, como os noticiados nos últimos dias, é impossível ignorar a gravidade da violência contra as mulheres no Brasil. Mas, afinal, quais são as raízes desse problema?
Ao menos nos últimos 20 anos, o país teve avanços significativos no âmbito jurídico, como a Lei Maria da Penha, o que, infelizmente, não se mostra suficiente para conter a violência. Além da urgência de melhorias na implementação das políticas públicas (com incremento de orçamento e ações), é fundamental um olhar para a questão cultural, que está na base da prevenção.
O combate efetivo impõe o enfrentamento do machismo, um sistema que estrutura e valida a desigualdade de gênero e as relações de poder na sociedade. Essa estrutura social nutre a negação de direitos das mulheres e uma certa tolerância da sociedade à violência contra elas. A solução, portanto, demanda a construção de uma cultura de respeito integral aos direitos humanos das mulheres.
O machismo se manifesta em relações de poder como a objetificação da mulher, que serve para justificar o direito masculino de controlar o corpo, as escolhas, as finanças e o convívio social dela; a hierarquização, em que o masculino é tido como superior e racional, e o feminino como inferior e emocional, garantindo ao homem autoridade nas decisões; e a imposição da submissão como papel social da mulher, o que faz da desobediência uma afronta à masculinidade, levando ao recurso à violência como reafirmação do poder.
A crise da masculinidade
Há uma relação direta entre a crise do capitalismo, a precarização do trabalho e a crise da identidade masculina, como vem alertando a ex-deputada Manuela d’Ávila. “O homem, que está deixando de ser o provedor, que está sofrendo com a precarização do trabalho, vive pior que o pai dele, enquanto mulheres estão vivendo um processo de emancipação”, disse ela em entrevista ao programa “Dando a Real”, com Leandro Demori.
Na medida em que o machismo vincula a masculinidade ao papel de provedor econômico, a perda dessa função essencial, em um contexto de crise, resulta diretamente em uma lacuna de sentido e uma crise de propósito para muitos homens.
Essa lacuna tem sido explorada por influenciadores e grupos extremistas na internet, como Incels e Redpills, que propagam uma identidade tóxica e reacionária à emancipação feminina. A disseminação de ideias discriminatórias e misóginas funciona como uma retórica de justificação para a violência contra a mulher.
Portanto, o crescimento do discurso misógino tem conexão com a escalada real da violência contra a mulher. Segundo a promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo Silvia Chakian, em entrevista para a Folha, além da maior notificação de casos, há um aumento no nível de perversidade e uma maior incidência entre jovens (vítimas e agressores). “A gente precisa observar esse caldo cultural como terreno propício para muita violência, porque são essas ideias discriminatórias sobre a mulher, esse desvalor construído nas redes, que vão justificar lá na frente o atentado contra a vida delas”, afirmou a promotora.
O impacto do machismo para as mulheres é de extrema gravidade: por ser um sistema que impõe o domínio masculino, ele leva à violência e, em última instância, ao feminicídio como forma de controle. Contudo, o machismo prejudica toda a sociedade. Ao impor aos homens um padrão rígido e limitador, ele impede o desenvolvimento de afetos e o acesso a uma vida plena e psicologicamente equilibrada.
Por Samantha Maia
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