Por que o Brasil tem os juros mais altos do mundo? – IREE

Análises e Editorial

Por que o Brasil tem os juros mais altos do mundo?

18 de setembro de 2026

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu, na quarta-feira, dia 16 de setembro, a taxa básica de juros pela quinta reunião seguida, de 14% para 13,75% ao ano. Desde março, a Selic já caiu 1,25 ponto percentual. A queda ocorre em um cenário de desaceleração da atividade econômica e da inflação. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, ante 1,1% nos três meses anteriores, enquanto o IPCA acumulado em 12 meses ficou em 4,22% até agosto, abaixo do teto da meta (4,5%).

Mesmo com a redução, o Brasil permanece com a maior taxa real de juros do mundo, segundo monitoramento das consultorias MoneYou e Lev Intelligence. Diferentes estudos apontam que não há uma explicação única para os juros elevados no país. Entre os fatores discutidos estão, por exemplo, o nível da meta de inflação e o funcionamento do regime de metas, a volatilidade da inflação e do câmbio, a menor poupança privada e de longo prazo, o crescimento do gasto público acima da capacidade de crescimento da economia e características da própria estrutura do sistema financeiro, como o peso dos títulos públicos de curto prazo.

Como é definida a taxa de juros?

A taxa de juros é o principal instrumento do Banco Central para fazer a inflação convergir para a meta. A cada reunião, o Copom avalia as condições da economia e os riscos para a inflação, considerando fatores como a atividade econômica, o câmbio, as contas públicas e o cenário internacional. Quando identifica pressões inflacionárias, pode elevar os juros para reduzir o ritmo da economia e conter a alta dos preços.

A meta de inflação, por sua vez, é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central. Para isso, o órgão considera as características da economia brasileira e busca estabelecer um nível de inflação compatível com a estabilidade de preços. A escolha envolve também um equilíbrio entre manter a inflação baixa e evitar custos excessivos para a atividade econômica.

Os juros elevados têm efeitos sobre toda a economia. Ao mesmo tempo que seguram a inflação, encarecem o crédito para famílias e empresas, dificultam a quitação de dívidas e desestimulam o investimento. Também aumentam o custo da dívida pública e tornam aplicações financeiras de curto prazo mais atraentes, reduzindo o incentivo para investimentos de longo prazo e maior risco.

Debate sobre a meta de inflação

Após 14 anos com a meta em 4,5%, o CMN iniciou em 2017 uma trajetória gradual de redução, que levou a meta de 4,25% em 2019 para 3% em 2024. A trajetória abriu uma discussão sobre se a meta de 3% é compatível com as características da economia brasileira.

Desde 1999, a inflação média ficou em torno de 6% ao ano. Mesmo no quadriênio de menor inflação média, entre 2017 e 2020, ela ficou em cerca de 4% ao ano, enquanto o PIB praticamente não cresceu e o desemprego médio ficou próximo de 13%. A partir desses dados, a corrente que defende uma meta mais próxima de 4% argumenta que perseguir os 3% pode exigir juros elevados por períodos prolongados e impor custos à atividade econômica.

Quem defende o patamar de 3% destaca que elevar a meta não necessariamente reduziria os juros, já que uma política fiscal expansionista pode manter a pressão inflacionária e exigir juros mais altos para contê-la. Nessa visão, elevar a meta também poderia desancorar as expectativas de inflação e comprometer a credibilidade do regime. Esse argumento também leva em conta a experiência internacional, com metas de 2% na maioria dos países desenvolvidos e de 3% em diversos emergentes.

A discussão sobre os juros revela uma escolha mais ampla sobre o funcionamento da economia. Taxas elevadas favorecem ativos financeiros de baixo risco, encarecem o financiamento público e privado e tornam investimentos de longo prazo menos atrativos. Reduzir esse patamar, portanto, depende não apenas da política monetária, mas também de condições que permitam ampliar o crédito, estimular o investimento produtivo e reduzir a dependência de uma remuneração tão elevada para o capital.



Por Samantha Maia

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