30 de julho de 2026
Nas últimas décadas, o Brasil registrou avanços importantes em diversos indicadores sociais e econômicos. O acesso ao ensino superior triplicou em 20 anos, o desemprego atingiu o menor nível da série histórica, a renda média do trabalho é recorde e o país saiu do Mapa da Fome após a redução da extrema pobreza.
Esses resultados, porém, não se traduziram em maior mobilidade social. Embora muitas pessoas tenham melhorado de vida, ainda é muito difícil alcançar uma posição econômica melhor do que a da geração anterior.
Segundo o Atlas da Mobilidade Social Brasil, do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), com base em dados do IBGE até 2019, apenas um terço dos brasileiros nascidos entre 1983 e 1990 em famílias que estavam entre os 50% mais pobres conseguiu chegar, na vida adulta, à metade mais rica da população. Além disso, somente 49% dessa geração alcançou uma situação financeira melhor que a de seus pais.
De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma criança brasileira nascida entre os 10% mais pobres da população levaria, em média, nove gerações para alcançar a renda média da sociedade. Em países como Dinamarca e Noruega, esse processo levaria apenas duas ou três gerações.
Os dados ajudam a explicar a frustração das novas gerações, como os “Millennials”, que chegaram à vida adulta mais escolarizados que seus pais, mas encontraram um mercado marcado por grandes transformações, como a flexibilização das relações de trabalho, a redução de garantias e estabilidade, o impacto das novas tecnologias e a maior dificuldade em construir patrimônio.
Um desafio estrutural
A baixa mobilidade social brasileira está ligada a uma desigualdade construída ao longo da história, marcada por mais de três séculos de escravidão, concentração de terra e exclusão do acesso à educação e à propriedade.
Essa concentração se manifesta em diferentes dimensões. Atualmente, os 10% mais ricos concentram cerca de 80% da riqueza do país, segundo o World Inequality Lab. No campo, apenas 1% dos estabelecimentos rurais concentra 47,6% da área ocupada do país, de acordo com o IBGE. Já os dados do Inesc e da Oxfam mostram que apenas 0,36% dos declarantes do Imposto de Renda concentrava 41,6% do patrimônio declarado à Receita Federal.
A mobilidade social não depende de esforço individual, mas da capacidade de reduzir as desigualdades de origem e ampliar oportunidades. Os países que apresentam melhores resultados nessa área costumam combinar educação pública de qualidade, serviços públicos eficientes, empregos de maior produtividade e sistemas tributários mais progressivos.
No Brasil, aumentar a mobilidade social exige enfrentar as estruturas que reproduzem a desigualdade. Isso passa por políticas públicas de qualidade, com investimentos mais eficientes e voltados à redução das desigualdades em educação, saúde e proteção social; por um sistema tributário mais progressivo, que tribute mais a renda e o patrimônio dos mais ricos e reduza os impostos sobre o consumo; por uma estrutura produtiva de maior valor agregado, com investimento em inovação, ampliando a produtividade e a renda; e pelo enfrentamento das desigualdades regionais, raciais e de gênero.
Por Samantha Maia
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