Por que a escravidão de africanos não foi como as outras? – IREE

Análises e Editorial

Por que a escravidão de africanos não foi como as outras?

30 de março de 2026

A Assembleia Geral da ONU aprovou no dia 25 de março de 2026 uma resolução que classifica o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade. Foram 123 votos favoráveis, incluindo o do Brasil, 52 abstenções (entre elas Portugal, Reino Unido e Espanha) e três votos contrários: Estados Unidos, Israel e Argentina. Embora simbólica e não vinculante, a medida reacende o debate global sobre memória e responsabilização histórica pela escravidão.

Proposta por Gana, a resolução busca abrir caminho para reparação e justiça histórica. Países contrários alegam risco de criar hierarquia entre crimes, enquanto lideranças africanas acusam tentativas de apagar o passado. Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, são necessárias ações mais ousadas para enfrentar essas heranças para confrontar as injustiças históricas.

 

 

Além do reconhecimento histórico, a resolução também solicita aos países que considerem pedidos formais de desculpas, a criação de fundos de reparação, a devolução de artefatos, documentos e obras retiradas de países africanos e medidas contra desigualdade racial.

Entre os séculos XV e XIX, 12,5 milhões de africanos foram sequestrados e transportados à força para as Américas, em uma rede que envolvia potências europeias. Portugal foi pioneiro nesse processo, liderando as primeiras rotas do tráfico atlântico. A Espanha também utilizou, em larga escala, a mão de obra de africanos escravizados em suas colônias. Já a Inglaterra se tornou uma das principais responsáveis pelo transporte e financiamento desse comércio.

Mas o que diferenciou esse sistema de outras formas de escravidão ao longo da história?

Nenhum outro sistema escravista reuniu, simultaneamente, escala global, duração prolongada e impacto demográfico tão profundo. Diferente de experiências como a Roma Antiga ou de partes do mundo islâmico, a escravidão nas Américas foi estruturada com base na ideia de raça.

Nesse modelo, pessoas negras passaram a ser consideradas inferiores por natureza. A escravidão deixou de ser uma condição circunstancial — ligada a guerras ou dívidas — e passou a ser hereditária e permanente. Com isso, consolidou-se uma ideologia racial que permanece influente até hoje, sustentando desigualdades e hierarquias sociais.

O sistema escravista atlântico também foi marcado por uma profunda desumanização institucionalizada. Pessoas eram tratadas como mercadoria: compradas, vendidas e transportadas como carga; submetidas a violência física e psicológica; e privadas de identidade, cultura e vínculos familiares. Essa prática era legalizada e sustentava a estrutura econômica colonial.

Além disso, a escravidão foi um dos pilares do desenvolvimento econômico global. Ela sustentou economias coloniais baseadas em produtos como açúcar, algodão e café, integrando redes comerciais entre África, Europa e Américas. Também gerou riqueza estrutural para as potências europeias e contribuiu para a formação do capitalismo moderno.

As consequências desse sistema não terminaram com a abolição. Até hoje, persistem desigualdades de renda e acesso a oportunidades, maior exposição à violência e menor mobilidade social entre populações negras. Esse legado histórico continua a influenciar as estruturas sociais contemporâneas e reforça a importância do debate sobre memória, reparação e justiça histórica.



Por IREE

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