6 de janeiro de 2025
Adoro podcasts. Outro dia um cidadão, pessoa fina, creio que médico, dizia que tinha saído no tapa com Deus. Sim, Deus, o Todo-Poderoso, o Criador, etc. E parece que o doutor ganhou, o bom velhinho anda enfraquecido. Noutro, um cidadão defende a pedofilia, desde que os pais permitam. Esse mesmo intelectual atacou a abolição da escravatura, já que em 30, 40 anos, não haveria mais escravos, dadas as leis do sexagenário, ventre-livre, etc. E foi uma ilegalidade, pois dispunham de PROPRIEDADES de terceiros, criando insegurança jurídica, ajudando a derrubar o Império. Alhures, um jovem místico nos explica como a física quântica nos quer felizes.
Para surpresa de milhões, a maioria é de direita – ou isentões. Só vou livrar a cara de um, o Podpah, que nas eleições não convidou Bolsonaro, pois “não convidaria alguém assim para sua casa”. Palmas pra eles que eles merecem!
Terminamos mais uma volta em torno do sol – ou do sol à nossa volta, segundo alguns bolsonaristas – e o que vimos, melhor, o que veremos? Vimos o país bater recordes de produtividade, de emprego, tendo inflação menor que dos EUA, por exemplo, e os jornais reclamando. Vimos o congresso – em minúsculas – chantagear o Governo – em maiúsculas – e a imprensa reclamar da falta de diálogo de Lula. Vimos o mercado – em minúsculas – comemorar uma cirurgia em Lula e cuspir fogo com os gastos sociais. E o que veremos?
Prefiro não saber.
Elon Musk – sim, ele – defende uma renda mínima para os desfavorecidos (sempre em tese, evidentemente), mas aqui o Mercado – perdão, mercado – prefere os 30 e tantos milhões de famintos que Bolsonaro nos legou.
Um parêntese: na longínqua hipótese de um bolsominion estar lendo estas bem-traçadas, o prezado amigo parou para pensar o que é ser faminto? Isso não é o estômago roncando enquanto o jantar não sai. É o estômago não roncar mais pois nem para isso tem força.
Mas este teoricamente é um texto de humor. Mesmo nos nossos melhores momentos isso é duvidoso, imaginem falando em fome. Então falemos de coisas alegres:
Bolsonaro deve ser preso.
-Injustiça! Não fiz nada!
-Pera, e as joias? E o atestado falso? E a tentativa de golpe? E os mais de 700 mil mortos? E os 33 milhões de famintos? E a interferência na PF? E…
-Foi tudo dentro das 4 linhas!
Esperemos, então, que nosso amado ex-presidente veja o sol inscrito dentro de quatro linhas durante alguns longos anos!
Uma coisa que causa espanto a todos que convivem comigo é minha infalibilidade quase que papal. Meus erros são contados nos dedos de uma das mão – inclusive na mão esquerda do Lula. Por conta disso perco amigos com uma certa frequência. A última leva foi durante a pandemia – ou melhor, logo em seguida. Um monte de gente, médicos incluídos, defendendo cloroquina e ivermectina, o tal “tratamento precoce”, lembram? E eu, do alto da minha falta de diploma, sendo esculhambado e recebendo diversas carteiradas, gente com doutorado, PHD, selinho azul do Facebook… À medida em que as vacinas foram avançando, eles foram sumindo. Um ou outro ainda tentava argumentar que tinha sido a imunidade de rebanho, tão querida do gado, mas mesmo estes sumiram. O bode é que os responsáveis por isso também sumiram. Não se ouve falar em justiça, vai ficar por isso mesmo?
Vai.
Encontrei Orson Welles na banca de jornais, olhando as manchetes. Saudei-o, ele me olhou de soslaio, e de supetão me apontou o charuto:
-Você viu o filme Anjos de Cara Suja?
-Vi.
-Resume.
-Dois amigos de infância tomam rumos diferentes. Um vira gângster e o outro, padre. O gângster vira ídolo da criançada, mas é preso e condenado à morte.
-Isso. Agora dá o spoiler do final.
-O padre lhe faz um pedido, que ele nega. Mas, no último instante, ao ir para a cadeira elétrica, ele finge que se acovarda, chora e grita. Fora o pedido do padre, para que as crianças o desprezassem e não seguissem caminho semelhante.
-E o que você transfere disso para o Brasil de hoje?
-Sei lá.
-Você claramente é meio limitado.
-De fato.
-Notou que o ex-presidente não tem tido mais nenhuma retenção intestinal? Pois é, está se borrando de medo de ser preso, pede penico, chora e esbraveja, e o gado continua chamando ele de mito.
-E qual é a conclusão?
-Nenhuma. Filmes não são de verdade.
-Mas que amargo… Alguma frase para meus leitores?
-Ou você morre herói, ou vive o suficiente para se tornar vilão.
-Nossa, que profundo. É de algum filme seu?
-Não, do Batman. E também não significa nada. Nada significa nada.
-Rosebud!
-Nem isso.
PS: Não aceito o resultado da Mega da Virada! Quero sorteio impresso e auditável!
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Ricardo Dias
Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.
Leia também
Quais as propostas dos candidatos para o salário mínimo?
Continue lendo...
PL, MP e PEC : três formas de mudar as leis do país
Continue lendo...