3 de julho de 2025
O pesquisador do Laboratório de Análise da Violência Ignacio Cano denunciou a existência de uma ditadura em El Salvador sob o governo de Nayib Bukele. Segundo ele, trata-se de um regime autoritário unipessoal e familiar, onde Bukele enriquece com práticas de corrupção que não podem ser investigadas, pois ele controla todos os poderes do Estado.
“A política de segurança pública do Bukele, na verdade, é uma das ferramentas de uma política autoritária de controle do Estado. Esse é o modelo, e precisa ser divulgado. Não se trata apenas de colocar pessoas inocentes na prisão, mas de controlar qualquer tipo de dissidência, seja na sociedade civil, no Judiciário ou no Parlamento”, afirmou.
O professor participou do webinar “A Necropolítica de Segurança Pública de El Salvador”, realizado pelo Núcleo de Segurança Pública na Democracia do IREE no dia 1º de julho de 2025, com a mediação do coordenador do núcleo, Benedito Mariano.
A Negociação, a Honradez e o Puxa-Saquismo Desvairado
Walfrido Warde no STF: Emendas atentam contra o Presidencialismo
O histórico de negociação com as “maras”
Ignacio Cano afirmou que Nayib Bukele negocia com os grupos criminosos no país para conseguir resultados como redução de homicídios, uma prática já realizada por outros governos. “Praticamente todos os governos recentes de El Salvador fizeram isso, a maioria de forma sigilosa e sem reconhecimento público”, disse o pesquisador. Apesar dos resultados imediatos, essas negociações não reduzem a criminalidade e criam um ambiente de promiscuidade entre o poder público e as gangues.
“Investigações recentes do sistema de justiça criminal norte-americano revelaram que altos integrantes do governo de Bukele negociavam vantagens com membros das maras. Inclusive, foi mostrado que alguns membros das gangues, já presos, foram libertados e escoltados até a fronteira por agentes do governo salvadorenho, como parte de acordos feitos secretamente”, disse Cano.
Para evitar esses acordos fossem tornados públicos, haveria inclusive um esforço de Bukele para repatriar chefes das maras presos nos EUA, alguns prestes a ser julgados pela justiça norte-americana.
A escalada autoritária de Nayib Bukele
Bukele foi eleito presidente de El Salvador em 2019 pelo partido Novas Ideias. Em 2021, ele conquistou maioria absoluta no Legislativo, o que deu início a um processo de ruptura do regime democrático no país. “Bukele então demitiu o procurador-geral, que investigava casos de corrupção envolvendo o governo. Em seguida, destituiu os juízes da Corte Suprema e os substituiu por magistrados leais a ele, que aprovaram a possibilidade de reeleição presidencial. Assim, ele se lançou novamente candidato e venceu em 2024”, relatou Cano.
Em seu segundo mandato, houve um aprofundamento da captura dos poderes do Estado e uma perda de transparência. O governo passou a reprimir a oposição e a perseguir ONGs e a imprensa, o que provocou a saída de jornalistas e ativistas do país. Dessa forma, explica Ignacio Cano, a política de segurança pública de Bukele se insere em uma estratégia autoritária mais ampla.
“O total carcerário do país chegou a 115 mil pessoas, o equivalente a 2,6% da população total de El Salvador. Isso significa que, de cada 50 salvadorenhos, mais de um está na prisão. Em algumas áreas do país, o percentual é ainda mais elevado.”
Além das prisões indiscriminadas, há registros de 265 mortes sob custódia estatal desde o início do estado de exceção. Segundo Ignacio Cano, o regime punitivo desenvolvido no sistema prisional de El Salvador tem características que podem ser qualificadas como tortura.
“Bukele conseguiu instaurar um clima de medo mais intenso do que o vivido durante a guerra civil. Eu morei em El Salvador no fim da guerra, em 1991. Havia grupos de extermínio e violência extrema, mas não o medo generalizado que existe hoje. Atualmente, pessoas participam de manifestações públicas com guarda-chuvas abertos para evitar identificação caso drones do governo filmem os protestos.”
Leia também
Quem é responsável pela Segurança Pública?
Continue lendo...
O eleitor quer se ver livre das facções criminosas
Continue lendo...
O eleitor quer mais proteção para as mulheres
Continue lendo...