Paulo Pedro Leal: o terreno e espiritual subúrbio – IREE

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Paulo Pedro Leal: o terreno e espiritual subúrbio

13 de maio de 2026

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



O subúrbio é o lugar da alteridade, do inesperado, do encontro com a diferença, do assombro e do espanto. É o que nos revela “Paulo Pedro Leal: trágico subúrbio”, exposição com curadoria de Pollyana Quintella e Renato Menezes, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo até 08/11/2026. A primeira exposição individual de Paulo Pedro Leal (1894-1968) cumpre uma das missões fundamentais da instituição: ampliar e complexificar as narrativas da arte brasileira, partindo do que foi historicamente alijado das narrativas oficiais e colocando em cena trajetórias que interrogam o país.

PPL – como o pintor assinava seus trabalhos – passeou assombrado por guerras, conflitos sociais e paisagens das margens do mundo, revelando o subúrbio como condição histórica em que vivem e sobrevivem precariedade e invenção, tragédia e humor. Sua obra revela os desejos e festejos brincantes e vitais, na sua pulsão e dimensão vertiginosa. Em brigas de bar e na subversão de cenas cotidianas, deparamo-nos com a observação aguda de um artista oriundo das camadas populares – o trágico subúrbio –, espaços utilizados para a reinvenção do que foi obliterado pela codificação das elites sociais e da arte canônica. Mirando os pequenos dramas cotidianos, seu trabalho articula intensidade pictórica e densidade, reafirmando o valor da vida pelo vigor de uma pintura forjada nos morros e subúrbios, expressão insurgente de uma ideia de coletividade com grande sensibilidade ligada ao popular, olhar aberto e poroso ao real, reorganizando o espaço, o corpo e o ritmo de forma complexa e sofisticada.

 

 

Luiz Antonio Simas – historiador, escritor e pesquisador das culturas e religiões populares – nos lembra: “O que me deixa impactado com a rua é que se toda diáspora é uma morte, toda cultura de diáspora reconstrói aquilo que foi aniquilado”. O corpo encantado das ruas a simbolizar saberes e práticas das culturas populares – como evoca Simas, citando como exemplos as escolas de samba, as rodas de capoeira e os terreiros de umbanda – resiste aos padrões impostos pelos saberes postos pelo cânone ou pela academia.

Filho de uma família que passou a maior parte da vida em Coelho da Rocha, no distrito de São João de Meriti, na baixada fluminense, PPL acompanhou o processo de modernização e redistribuição geográfica da cidade do Rio de Janeiro, que empurrou os pobres para a periferia. Na sua pintura, no entanto, o centro é o subúrbio carioca que, sobretudo, é também espaço crítico e estético. Nas brigas de bar tudo parece se romper de forma abrupta. Há facas e cadeiras arremessadas, objetos fragmentados, sangue. O olho circula na vertigem da pulsão e o bar comparece como contraponto ao cotidiano avassalador. A morte se apresenta como um dado concreto e inescapável. Em transatlânticos afundando há também muita agudeza, algo da catástrofe e do incontrolável. Como um cronista, o artista transforma assuntos de jornais e revistas em pintura.

Vendendo suas obras no centro da cidade, Paulo Pedro Leal transfigurou a morte em vida. O pintor negro e pobre apresentou a barbárie da vida urbana em cenários que destoavam das paisagens idílicas que agradavam os colecionadores da época. Dentre outras cenas, PPL revela “a matança dos mendigos do Rio Guandu” como gesto político radical, oriundo da observação viva e atenta do entorno, uma pintura abissal que rompe com todos os paradigmas de um pintor considerado “naif”.

Como afirma Pollyana Quintela: “Não à toa, o circuito que classificou Leal como primitivo, ingênuo e popular foi o mesmo que demorou décadas para reconhecer que o homem negro, autodidata, pai de santo, morador da Baixada Flumimense, havia produzido uma das leituras mais lúcidas e perturbadoras da violenta modernidade brasileira do século XX. O que esta exposição oferece é também a oportunidade de perguntar o que se perde quando os critérios de legitimação coincidem tão precisamente com as hierarquias que sua obra recusava pintar“.

Outro aspecto importante, este ressaltado por Renato Menezes, é o lugar de Pedro Paulo em uma cena seduzida pela experiência abstrata e pela tradição geométrica. Sua obra reafirma o popular através de escolhas artísticas que visavam representar a população preta e pobre do Rio de Janeiro. PPL é o “pintor das macumbas” que retrata os pretos velhos e homens e mulheres de origem africana que foram submetidos à escravidão, aspecto decisivo e cortante em seu trabalho.

Com retratos pungentes da desigualdade que ainda marca o país, a pintura de Paulo Pedro Leal existe e revela as feridas perpétuas de uma sociedade dividida, um Brasil que ainda não vive uma democracia racial plena. PPL dizia ser um pintor espiritual. Sua obra revela, paradoxalmente, que nada é mais espiritual do que o terreno.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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