Paulo César Pinheiro, 75 anos: um Brasil na palma da minha mão – IREE

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Paulo César Pinheiro, 75 anos: um Brasil na palma da minha mão

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



A música brasileira é uma escola, e a lousa verde é a nossa Amazônia. Nas letras das canções do nosso compositor homenageado, a fauna e a flora vencem as queimadas e o garimpo, o que por vezes a realidade vivida não consegue garantir. Então fica aí a primeira lição, é importante que a emoção sobreviva, é preciso enxergar beleza e esperança onde às vezes parece não haver. Na ponta de sua caneta, nossas águas servem para nos ensinar os nomes dos nossos rios, e por quais mares navegamos para chegar a esse Brasil. Nas suas terras de “Senhorinha” e de “Saci”, sentimos percorrida uma longa extensão de costumes e folclores brasileiros.

Paulo César Pinheiro começou a escrever aos treze anos, regido, como ele mesmo diz, pela lua cheia. Ali iniciava-se uma das páginas mais ricas da história da nossa música, com letras que recompõem no interior do imaginário brasileiro a vida indígena, a vida negra, o candomblé, a umbanda, o modo de ser sertanejo, caboclo e mestiço na sua capacidade de pertencer, e ao mesmo tempo ver de fora as relações que o encontro étnico resultou na nossa cultura.

Foi vizinho do grande cantor Sílvio Caldas, no bairro de São Cristóvão no Rio de Janeiro, onde nasceu. Por muitos anos pôde escutar as serestas do velho boêmio pelas madrugadas, e nos seus encontros com amigos nos botequins das esquinas, encontros sempre regados à boa música, pairava certo tom de romantismo e muita inspiração que só o repertório do grande cantor daqueles velhos tempos trazia.

Teve como primeiro parceiro de “Viagem”, o violonista João de Aquino, primo daquele que seria seu segundo parceiro e um dos maiores nomes do violão mundial, Baden Powell. Com este último pelas noites do Rio de Janeiro, conheceria a maior parte dos grandes artistas dos anos 1960, e comporia alguns sambas eternizados como “Vou deitar e Rolar”, “Refém da Solidão” e “Última Forma”.

Conta-se que no antigo bar do Veloso, em Ipanema, quando Baden e Paulinho Pinheiro foram mostrar seu primeiro samba juntos para uma mesa composta de amigos como Carlos Lyra, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, e o compositor Candinho, após a terceira execução de “Lapinha”, cantada por todos os presentes, o poetinha, sentindo que estava perdendo o parceiro dos “Afro Sambas” para um garoto talentosíssimo de 16 anos, deixa a mesa e não retorna mais. Para o espanto do menino e confirmação dos parceiros do poetinha, aquele momento seria a “passagem de bastão”, para aquele que escreveria algumas das mais belas letras brasileiras.

No início dos anos 1970, a convite do amigo Hermínio Bello de Carvalho, Paulo César Pinheiro conhece nos estúdios da Odeon, o Mestre Pixinguinha. Nesse momento, o grande saxofonista gravava o seu álbum “Pixinguinha 70”, produzido por Hermínio. Quando ouviu de seu produtor que aquele rapaz ali, contando 20 anos de idade (Pixinguinha já estava com 70 anos), era a pessoa ideal para escrever a letra de sua música predileta, o choro “Ingênuo”, não pensou duas vezes e concedeu a benção que amarrou gerações, e porque não dizer, séculos distintos da nossa música.

Com parceiros como João Nogueira, compôs “Espelho”, uma das homenagens mais férteis a um pai. Uma música que faz parte da cultura nacional, e para além da sua qualidade, tocou fundo a alma de uma terra onde essa figura é tão ausente. Em sua parceria com o músico e compositor paulistano Eduardo Gudin, além de composições icônicas como “Lá se vão meus anéis” ou “Veneno”, realizou a série de shows que resultou no álbum “O importante é que nossa emoção sobreviva”, de 1975, tendo a cantora Márcia à frente dos microfones. Realizadas em meados dos anos 1970, essas apresentações no Teatro Oficina, em São Paulo, soaram como uma maneira de resistir ao truculento regime militar estabelecido naquele período.

Um dia quando Dom Helder Câmara foi cumprimentar o grupo MPB 4 após uma apresentação, surpreendeu o grupo que cantava uma música que muito lhe chamou a atenção: era “Evangelho”, a primeira composição feita em parceria com Dori Caymmi. A respeito dessa música, o bispo teria declarado ao próprio compositor que considerava a letra o “verdadeiro evangelho”, em manifestação emocionada de prestígio pelo que acabara de escutar.

Assim como Pixinguinha, Paulo César Pinheiro também é um compositor que transita os séculos. Suas parcerias contam hoje com nomes mais recentes do cenário brasileiro como o músico e violonista João Camarero, e o também violonista Julião Pinheiro, filho do poeta. No passado, sua obra chegou às vozes de Clara Nunes, Elizeth Cardoso, e Elis Regina, que juntas consagraram a obra do poeta cada uma a seu estilo. Com Clara Nunes, a quem compôs a maior parte da obra e verdadeiros como “Canto das três raças”, “Morena de Angola” ou “Brasil Mestiço”, escreveu algumas das letras mais profundas de um país que ainda teima existir, mas que resiste em cada nova composição desse grande letrista da nossa música.

Viva Paulo Cesar Pinheiro, 75 anos! 



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Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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