Para derrotar Bolsonaro, o caminho é a rua – IREE

Colunistas

Para derrotar Bolsonaro, o caminho é a rua

Letícia Chagas

Letícia Chagas
Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto



Os protestos de rua sempre foram um importante instrumento para as classes trabalhadoras. Em uma “democracia” constituída pela desigualdade, enquanto as elites conseguem impor suas demandas através de seu poder econômico, trabalhadores precisam ir às ruas para lutar por aquilo que acreditam, colocando em xeque a pretensa estabilidade de um governo.

Quando se trata de derrotar Jair Bolsonaro, não é diferente. Nesses quase dois anos de pandemia, se tornou evidente que não podemos confiar nos instrumentos institucionais para derrotar este governo. Prova disso é que, embora Bolsonaro tenha sistematicamente cometido crimes de responsabilidade, o principal instrumento jurídico capaz de destituí-lo do cargo – o impeachment – parece ter sido completamente esvaziado: a despeito de terem sido apresentadas mais de 100 denúncias, Arthur Lira – assim como seu antecessor, Rodrigo Maia – tem se recusado a analisá-las. 

Por isso, ocupar as ruas em protestos massivos é a forma mais efetiva – se não a única – de pressionar a Câmara dos Deputados a dar andamento a uma das denúncias contra Bolsonaro. Contudo, nos últimos meses até mesmo a via dos protestos de rua parecia infactível, considerando a gravidade da pandemia de Covid-19 no Brasil. 

Ano passado, quando os protestos em reação ao assassinato de George Floyd nos Estados Unidos tomaram o mundo, lembro-me que, no Brasil, figuras públicas dividiam-se entre apoiar os atos ou defender que ainda não era a hora de irmos às ruas. Naquele momento, parte da população negra já sabia o que para muitos – inclusive para mim – se tornou inegável apenas em 2021: ir às ruas é nossa única chance, porque para muitos o isolamento social como forma de sobrevivência nunca foi uma possibilidade. 

Não à toa, foram os protestos organizados pelo movimento negro que contribuíram para o fortalecimento dos atos contra Bolsonaro ocorridos no dia 29 de maio. A chacina que ocorreu em Jacarezinho mostrou que, para muita gente, nem sua própria casa é um lugar seguro.

Também diante desse cenário, não há saídas possíveis que não a mobilização política. A decisão do Supremo Tribunal Federal pela restrição da realização de operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia não impediu casos como a chacina de Jacarezinho e o assassinato de Kathlen Romeu. Estes tristes exemplos demonstram que, sem luta política, instrumento jurídico algum é capaz de impedir o genocídio negro que há anos perdura no Brasil. 

Para além da insuficiência das instituições brasileiras em mudar esta realidade, o racismo demonstra a importância das mobilizações em ainda mais um aspecto: quando falamos em derrotar Bolsonaro, devemos lutar para construir um novo projeto de país, não nos contentando em simplesmente restabelecer aquilo que havia antes. Para as classes trabalhadoras, sobretudo para negras e negros, nunca foi sequer possível falar em democracia. 

É por isso que o discurso de “derrotar Bolsonaro em 2022”, principal aposta do Partido dos Trabalhadores (PT), é uma falácia, considerando que a permanência de Jair Bolsonaro contribui diariamente para a morte de milhares de brasileiros, mas também porque, ao lutar por sua queda, busco um Brasil diferente daquilo o que existia antes. Ao ignorar os protestos que ocorreram no dia 29 de maio, Lula menospreza cada um que coloca sua vida em risco para lutar por um Brasil melhor, se colocando aquém da tarefa de se construir uma sociedade diferente da que vivemos.

Para transformar nossa realidade, “tudo que nóis tem é nóis”, como já disse Emicida. No próximo sábado, dia 19.06, mais uma vez iremos às ruas – tomando todos os cuidados necessários a fim de evitar a contaminação pelo Covid-19 – pelo impeachment de Jair Bolsonaro e por uma democracia para todos e todas. 



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Letícia Chagas

Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto. Graduanda em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Programa de Educação Tutorial (PET) Sociologia Jurídica.

Leia também