Oswald e Mário de Andrade: O Mau e o Bom Selvagem – IREE

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Oswald e Mário de Andrade: O Mau e o Bom Selvagem

28 de abril de 2025

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



O livro escrito pelo biógrafo Lira Neto intitulado Oswald de Andrade: mau selvagem, lançado em 2025 pela editora Companhia das Letras, é, para além da história de um dos personagens mais influentes da cultura brasileira e, em particular, a paulistana, as histórias da construção de cada cantinho da nossa imensa São Paulo. Desde os currais lamacentos do bairro da República até a inauguração do Viaduto do Chá, primeira obra de porte na cidade que inseria em suas terras as modernizações industriais do século, a trajetória de Oswald está intimamente ligada ao desenvolvimento da própria terra onde cresceu.

Filho da paraense Inês Henriqueta Inglês de Sousa e do mineiro de nascença José Oswald Nogueira de Andrade, o menino foi batizado com o nome de José Oswald de Souza de Andrade, no dia 11 de janeiro de 1890. Em um período de forte transformação social no Brasil, as revoltas de negros escravizados não passaram longe da história de sua família. No poema “Levante”, Oswald se refere a uma insurreição de escravizados na fazenda de seus antepassados, onde teria ocorrido uma enorme carnificina, assombrando com memórias os aposentos da família até seus dias atuais. Para sobreviver em fins de período colonial, seus “donos” teriam vivido um bom tempo do “aluguel de negros”, prática na qual escravizados eram mandados à rua para encontrarem os mais diversos serviços em troca de algumas moedas.

O Sr. José Oswald, pai do recém-nascido, foi gerente-tesoureiro do inaugurado Banco Popular, e em seguida do Banco da Lavoura, destinado a incentivos financeiros aos cafeicultores paulistas afetados com o fim da escravidão e, consequentemente, sua mão de obra. Em decorrência do tamanho de seu poder e influência, e também das propriedades de terras que foi adquirindo com o tempo, receberia informalmente a alcunha de “coronel”, expressando um tipo de cultura do “coronelismo, enxada e voto” existente na época. Sua esposa embora nascida no Pará, teria crescido em Recife, Pernambuco, e seria a maior responsável pelos caprichos e pela capacidade imaginativa do filho, que cresceu sob seus afetuosos cuidados e ouvindo suas histórias.

A descoberta do corpo, do desejo sexual, da ereção e de como são realmente “feitos os bebês”, fazem de Oswald de Andrade ainda na infância um personagem interessantíssimo, deitando por terra em sua mente os valores morais que a família católica custava lhe instruir. Embora a biografia nos apresente os raciocínios de um Oswald mais maduro olhando para a sua infância, o seu arrasador sarcasmo confirma uma personalidade e produção literária profundamente pessoais, aliadas ao questionamento de tabus observados ao longo de sua vida. Em alguns anos, tantas histórias transformadas em matéria de poesia colocariam frente a frente dois dos maiores escritores que um dia o Brasil haveria de conhecer: Oswald e Mário de Andrade.

O nosso mau selvagem conheceu Mário durante um evento no Conservatório Dramático e Musical em São Paulo, no ano de 1917. Por conta da declaração de guerra emitida pelo Brasil contra a Alemanha, a instituição recebeu em novembro daquele mesmo ano a figura de Elói Chaves, secretário estadual de justiça e segurança pública de São Paulo, que palestraria sobre o assunto naquela noite de 21 de novembro. que Como conta a biografia escrita por Lira Neto, após uma apresentação de Mário de Andrade, concluinte do curso de piano e professor assistente, Oswald teria ficado tão impressionado que, após o evento, ele teria tentado tomar os papéis das mãos de Mário para publicá-los a qualquer custo. Lisonjeado com a situação, Mário teria simpatizado e feito amizade com Oswald a partir daquele instante.

Mário de Andrade estudou no mesmo colégio do qual Oswald guardava péssimas lembranças de sua passagem como aluno. Inclusive não é improvável que possam ter se cruzado pelos corredores ou por intermédio de colegas em comum. Anos mais tarde, as peripécias do destino os colocariam diante de um professor de letras, cada um em uma escola e curso diferente, o qual distribuía muito afeto a um, e um certo desdém e inimizade a outro.

Gervásio de Araújo, professor de língua portuguesa do colégio São Bento, era um grande entusiasta do jovem Oswald de Andrade para que seguisse o caminho da literatura, sendo mesmo possível que o futuro autor de O Rei da Vela (1933), deva a este professor seu maior incentivo para que se tornasse escritor. Porém este mesmo mentor lecionava na Escola do Comércio Álvares Penteado, onde Mário de Andrade era aluno do curso de contabilidade. Após diversos embates com o professor, um homem que prezava os padrões tradicionais do idioma, Mário decidiu abandonar o curso e ingressar na Escola Livre de Filosofia e Letras. Dois pesos e duas medidas de um caminho cruzado que resultaria em duas de nossas maiores expressões literárias.

Mais tarde, a aproximação com Mário teria feito Oswald se libertar das influências que ainda nutria de figuras como o poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918), abrindo mais seus olhos e ouvidos para as manifestações artísticas inovadoras do período. Inclusive no quesito sobre a cultura brasileira, sendo conhecida a reunião que acontecia toda terça-feira na casa de Mário na região da Barra Funda, onde apresentava ao piano alguns lundus a um grupo de amigos na sala de sua casa. Amigos estes que seriam os principais representantes da cultura moderna paulistana expressivamente a partir do ano de 1922. Juntos a outros artistas que comporiam o que viria a ser o grupo do “movimento modernista”, com nomes como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Guilherme de Almeida, distinguiam-se pelo avanço na estética artística de seu tempo, tanto por seus temas e formas, quanto pelas contrariedades ao formalismo da língua portuguesa cultuada na época.

Mário de Andrade via na amizade com Oswald uma parceria complementar à sua personalidade. Em tom de zombaria, gritava do Viaduto do Chá que ele mesmo tinha lido tudo e não conhecia ninguém pessoalmente, já o Oswald, não tinha lido nada e conhecia todo mundo, então completavam-se.

Após toda a movimentação ocorrida na famigerada semana de arte moderna de 1922, divergências intelectuais e outros caminhos começaram a interferir na relação construída pelos dois amigos. Ambos desejavam a irrupção da cultura brasileira a partir de dentro, a partir daquilo que seria “nossa identidade”, com nosso sotaque brasileiro, mais próximo do idioma que se escutava nas ruas, nos bondes e nos cafés da Paulicéia; outro, desejava botar de dentro para fora da cultura brasileira todo seu informalismo, ruir com o comportamento moral que ainda exercia influência sobre a arte brasileira por volta dos anos 1920. Após tantas décadas, podemos dizer que Oswald e Mário de Andrade são dois dos personagens mais influentes no comportamento e nas ideias sobre arte e cultura que prevalecem até nossos dias em São Paulo e no Brasil.



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Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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