Os impactos da seca prolongada na Amazônia – IREE

Análises e Editorial

Os impactos da seca prolongada na Amazônia

24 de outubro de 2023

Por Juliana Pithon e Samantha Maia

O Rio Negro, um dos principais afluentes do Amazonas, chegou no último fim de semana a menos de 13 metros de profundidade, menor nível registrado desde 1902, quando começaram as medições. A expectativa é que a estiagem possa ser a maior já registrada na região e que a temporada de seca demore mais para acabar, estendendo-se até janeiro, com fortes impactos para a população.

A cada nova atualização de dados, aumenta o número de municípios afetados, onde as pessoas têm dificuldades para navegar e ter acesso à água, com prejuízos para a rotina de trabalho e de estudos. Segundo boletim divulgado pela Defesa Civil do Amazonas no domingo, dia 22 de outubro, a seca histórica na região já afeta 633 mil pessoas e 59 cidades estão em estado de emergência.

Das mais de 100 grandes indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM), 35 darão férias coletivas para 17 mil trabalhadores até 4 de novembro. Mais de 5,5 mil alunos em comunidades ribeirinhas no Amazonas já foram afetados pela baixa dos rios, que dificulta o acesso às escolas por embarcações. Os estudantes enfrentam longos percursos e terrenos íngremes para assistir às aulas.

A seca também alterou a rotina de trabalho das mulheres indígenas do Alto Rio Negro, o que afeta a saúde e a produtividade nas roças e gera preocupações sobre a segurança alimentar e a economia local. As embarcações que operam no terminal graneleiro (Hermasa Itacoatiara/grãos) e nos principais terminais de contêineres da Zona Franca (Chibatão e Superterminais) estão com capacidade reduzida.

Medidas de enfrentamento

O governo federal anunciou a liberação de R$ 647 milhões para a região, distribuídos da seguinte forma: R$ 232 milhões via Ministério da Saúde; R$ 138 para dragagens, por meio do DNIT; R$ 100 milhões em adiantamento de emendas; R$ 61,8 milhões para os municípios; R$ 35 milhões do Fundo da Amazônia; R$ 35 milhões do Ministério da Justiça; R$ 26 milhões do Ministério do Meio Ambiente; R$ 20 milhões do Ministério da Defesa.

O Ministério da Saúde enviou técnicos especializados em saúde pública e vigilância ambiental, e disponibilizou 7 kits de calamidade contendo 32 medicamentos e 16 insumos essenciais. A Marinha, por meio do Navio de Assistência Hospitalar Soares de Meirelles, em ação conjunta com o Exército e autoridades locais, distribuiu mais de 6 mil cestas básicas e 1,1 mil caixas de água mineral em municípios da região do Alto Solimões.

Parlamentares amazonenses denunciam a demora na alocação de recursos financeiros para combater a estiagem no estado e exigem ação mais vigorosa tanto do governo federal quanto estadual.

Causas da seca

A presença do El Niño é apontada como uma causa importante para a seca na Amazônia. Ele eleva a temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial e provoca alterações nos padrões de ventos, umidade, temperatura e precipitação, principalmente nas áreas tropicais. No Brasil, o fenômenos diminui as chuvas e aumenta as temperaturas, afetando especialmente as regiões Norte e Nordeste.

Mas o que agrava a situação é a combinação do El Niño com um aquecimento excepcional do Atlântico Tropical Norte, localizado acima da linha do Equador, que também inibe a formação de nuvens e reduz o volume de chuvas na Amazônia.

Apesar de estar em queda neste ano, o desmatamento da Amazônia é outro fator de mudança do clima que desafia a região. De janeiro a agosto deste ano, o território desmatado na Amazônia equivale a quase duas vezes o tamanho do estado de São Paulo, sendo o sétimo maior desde o início do monitoramento em 2008. Além disso, queimadas, movimentação de sedimentos por meio do garimpo e de plantações de soja também influenciam uma cadeia de mudanças na Amazônia.



Por Samantha Maia

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