3 de setembro de 2024
Ricardo Dias (eu), em sua infinita sabedoria, está pasmo: tem articulistas, gente aparentemente séria, achando que se deve largar o Marçal em paz e deixar “o povo decidir”. Como diria o mestre Stanislaw Ponte Preta, “essa frase, que parece inteligente, é de gente indigente metida a dirigente”. Boquiabro-me diante de tamanha estultice (a indignação t deixar meu vocabulário meio bizantino…).
Ora, o sujeito debocha da democracia, rompe regras a torto e a direito, e o creti…, digo, comentarista, acha que está tudo bem. Queria saber o que ele diria se Marçal tivesse roubado dinheiro da sua mãezinha – caso, claro, Marçal fizesse parte de alguma quadrilha que rouba pessoas. Isso vale também para os imbeci… Digo, articulistas, que acham que Xandão deveria deixar Elon Musk para lá. O Reinaldo Azevedo, para mim, fez a melhor leitura do embate. O diabo é que a direita está enfileiradinha, fardadinha, de dente escovado e cabelo com gumex, unida nos ataques ao bom Alexandre. A esquerda – a tal, que só se une na cadeia – ignora. É complicado ser progressista nesse país.
Vejam que expectativas nem sempre são cumpridas da forma que se espera. Há alguns anos li ou assisti, em algum lugar, alguém dizendo algo como:
-Sabendo que Batman e Homem de Ferro não têm nenhum superpoder, são apenas fruto da tecnologia gerada por suas fortunas, Bill Gates até agora tem sido uma tremenda decepção!
Pois não é que o bom Musk resolveu corrigir isso em parte, se tornando um supervilão? O imagino num castelo numa ilha deserta, trovões ao fundo, e ele tocando Bach no órgão. Seus asseclas trazendo tubos enormes de papel com planos para dominar o mundo – começando por tentar derrotar Xandão que, convenhamos, também tem cara de supervilão. Chego a vê-los, capas pretas, jogando raios um no outro enquanto dão gargalhadas sinistras.
Mas notem que, num país onde as verdades valem por meia hora e as pós-verdades anos, utilizo de meu espaço para dar meus sinceros parabéns a Joice Hasselmann, pela coerência e constância. Apoiou Bolsonaro, rompeu com ele por considerá-lo desonesto, e agora apoia Pablo Marçal. Há a expressão “dedo verde”, destinada às pessoas que têm dom para fazer crescer plantas. A moça, definitivamente, tem o dedo marrom.
Outros que têm tudo a ver um com o outro são Huck e Zelensky. Achei extraordinária a ideia do bom nariz entrevistar seu colega palhaço. Não tive estômago para assistir, mas ver um é ver o possível futuro do outro. Já disse aqui: Zelensky é como o presidente da associação de moradores de uma comunidade, que um dia resolve que a favela não vai mais ser do Comando Vermelho, vai ser do PCC, ou vice-versa. Se ganhou para isso não se sabe, mas que é uma ideia estúpida, é. Vendo as intenções eleitorais do animador podemos acreditar que nosso futuro poderia ser como o da Ucrânia, que achou boa ideia eleger um palhaço. Aqui até elegemos um, mas que não podemos chamar de palhaço em respeito à nobre arte dos clowns.
E antes de entrar no próximo tópico, quero deixar aqui minha concordância com pelo menos UM dos temas caros ao bolsonarismo: pronomes neutros. Que coisa mais idiota, meu Deus…
Bem, vamos ao tópico principal do dia:
Senor Abravanel.
Helio Fernandes, da sua Tribuna da Imprensa, todos os dias esculhambava Roberto Marinho. O chamava de Octogenário Argentário, depois para Nonagenário Argentário, até que este morreu. Helio escreveu um enorme editorial dizendo mais ou menos: era um pilantra, mas agora entrou para a história. E listava os feitos do adversário.
Silvio Santos era mais ou menos isso. Um sujeito com um enorme foco e nenhuma preocupação social mais ampla. Seu quadro mais famoso talvez tenha sido “Boa Noite, Cinderela”, no qual 3 meninas expunham suas misérias e sonhos e, no fim, uma delas era coroada princesa e ganhava um monte de prêmios. Já as outras duas… Coincidência ou não, virou nome de golpe famoso.
De um modo geral havia uma enorme exploração da miséria (assim como no citado estadista Huck) e venda de sonhos, via Baú da Felicidade, Pião da Casa Própria e coisas assim. Quando eu era criança, diziam que ele ia ganhar o Nobel de Química, por ter transformado o domingo numa bosta. Sem contar seus acenos aos militares durante a ditadura. Como disse, nunca teve consciência social mais ampla, tinha uma meta e a perseguia. Mas…
O que vai ficar para a história é o cara determinado, que sempre honrou a palavra (o que não é pouco), que sempre tratou os funcionários com dignidade, que saiu de lá de baixo e chegou lá em cima. Deixou um nome na história das comunicações do país. E alguns dos melhores jingles de todos os tempos.
Termino falando de um assunto que não tem muito a ver com a coluna, mas que tangencia um pouco.
Sigo, há alguns anos, um casal viajante no YouTube, Michelle e Renan.
São dois doidos adoráveis que resolveram largar tudo e ver o mundo. Sem dinheiro no início, fizeram coisas absurdas, como pegar carona no Tibete ou dormir numa tenda no deserto. Com a monetização do Youtube conseguiram melhorar um pouco, e fazem agora viagens com mais estrutura, sempre com muito respeito aos povos, costumes, religiões etc. Em cada país falam de sua cultura e de seu dia a dia, pois se hospedam geralmente nas quebradas. Na pandemia me ajudaram muito, assistia a um vídeo por dia, me libertando um pouco das incertezas do momento. Pois, nesse momento em que se discute a regulação das redes sociais, em que os maiores absurdos são postados, eles tiveram um vídeo desmonetizado.
Estão em Madagascar. Descobriram uma aldeia que tem o costume de mudar a roupa de seus mortos. Estes são colocados em criptas e, quando alguém da aldeia sonha que o falecido está com frio, fazem uma enorme festa para trocar suas mortalhas. É uma coisa muito impressionante, há a alegria das pessoas, a tristeza de alguns mais próximos do morto, há uma enorme pobreza e um sacrifício financeiro para fazer a comemoração. E tudo mostrado com muito respeito e emoção, sem mostrar nenhum cadáver, apenas panos enrolados.
Pois foram desmonetizados neste vídeo. Um trabalho lindo, educativo, quase antropológico, recebe uma censura pesada para quem vive disso – e que, por princípios morais, recusaram ser garotos propaganda de casa de apostas!
Mas ensinar criança a se comportar como imbecil, deixar Pablo Marçal caluniar, gritar ao mundo fake news, pode.
Regulação JÁ!!!!!!
E temos um PS: Depois desta coluna escrita eles tiveram OUTRO vídeo desmonetizado. O Youtube não explica o porquê, mas eles começam a temer pelo futuro do canal. Assisti ao vídeo, e não há nenhuma razão para isso. Como eles, apesar de não fazerem proselitismo político, claramente são progressistas, pode haver alguma denúncia de paspalhos da extrema direita.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Ricardo Dias
Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.
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