Os Cojones, a Sarna e a Gravidez – IREE

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Os Cojones, a Sarna e a Gravidez

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Os pessoais anda dizendo que essa patética tentativa de golpe na Bolivia teria o dedinho do bom Musk. Ele estaria interessado no Litio que abunda no país irmão; outras fontes dizem que é coisa da China, já outras dizem que a Bolivia é assim mesmo e pronto. O que nos interessa é que falhou, e que ajudou a mostrar outros golpistas daqui. O ecólogo Ricardo Salles – que não se perca pelo bonito prenome – nos conta, em outras palavras, que os generais de lá não são melancias como os daqui. Melancia, cabe explicar, é verde por fora e vermelha por dentro. Rá rá rá, que criativo e original. Também ressalta que eles têm cojones. Será que o bravo Ricardo os terá, quando fatalmente for em cana? Será que não está arrumando mais sarna para se coçar?

Sarna…

Tive uma formação religiosa sólida, que inclui jamais desejar o mal a ninguém. Nem a Bolsonaro, o quero bem saudável quando for preso. Mas esse surto de sarna, especialmente em locais onde a ivermectina foi usada como balinha de menta, é divertidíssimo! Claro, não há provas de relação causa/consequência, mas é bom demais. Só espero que a escabiose tenha consciência e saiba bem a quem contaminar.

Mas a semana não é completa sem que mencionemos a proibição de um livro do enorme Ziraldo em Minas. Aconteceu que no livro se fala num pacto de sangue. Os pais, intelectuais sempre zelosos, acharam isso “muito agressivo”. E pior: um personagem tem um “pensamento negativo” no livro. Estamos vivendo um momento complicado. Eu sou contra censurar qualquer livro, do Mein Kampf à biografia do Bispo Macedo. Livros devem ser lidos, estudados, criticados. Nos casos onde haja algum anacronismo, uma expressão em desuso, alguma expressão que hoje não se use mais, simples: usa-se um recurso espetacular, revolucionário, chamado “nota de pé de página”. Não é bacana a ideia? Mas não, melhor censurar. E vamos dar um pouco de crédito às crianças – ou então educá-las melhor, também ajuda. Mas se formos julgar por conteúdo fora de contexto, eu sempre serei a favor de ler com muito cuidado um livro onde tem traição, amantes, incesto, assassinatos, tortura, morte de crianças, animais falantes… Preciso citar que livro é esse?

Mas a semana não é completa… Epa, já falei isso. Mas fazer o quê, as semanas aqui são de uma incompletude brutal!  sem a participação do nobre vereador Rubinho Nunes, do União de São Paulo (a quem aproveitamos o ensejo para dar nossos mais sinceros parabéns), que fez um projeto de lei – aprovado em 25 (VINTE E CINCO segundos) pela câmara proibindo dar comida a moradores de rua. Ora, temos que parabenizar essa pessoa. É muito difícil conseguir atingir um estado de cretinice desse porte. Ele já está no Panteão dos luminares da Nação ao lado do nobelérrimo deputado Sóstenes Cavalcanti, aquele do projeto que penaliza a mulher por aborto feito após 22 semanas de gestação. Ou melhor, não penaliza, ele deixa isso bem claro: coloca a moça sob uma reeducação socioeducativa. A menina pode ter 14 anos, ter sido estuprada por um parente próximo, não ter para onde ir, estar sob o impacto de sua vida destruída, mas receberá do cristão deputado a possibilidade de frequentar um curso onde receberá… O quê? E, principalmente, de quem? Damares? Algum PM aposentado? Ou, melhor, algum ex-estuprador cumprindo uma pena socioeducativa também?

Este é o nosso Brasil. Onde há mulatos inzoneiros, coqueiros que dão coco, onde a Lua vem brincar, Terra de Nosso Senhor. Aqui temos gente que apoia essas coisas. Que acha importante obrigar uma criança estuprada a passar 270 dias carregando outra criança, colocando em risco seu próprio corpo, sem talvez nem entender bem o que acontece, e em seguida entregar para adoção. 

-Ah, mas não precisa esperar 22 semanas para abortar!

Em 2005, uma atleta da seleção brasileira de basquete sentiu uma dor abdominal. Estava grávida, deu à luz.

Em 2009, uma levantadora de peso chilena deu à luz no susto. Não fazia ideia da gravidez. 

Em 2023 uma jogadora de futebol profissional descobriu que estava grávida de 6 meses. 

Em todos esses casos, o final foi feliz. Não houve estupro, foi apenas um susto. Mas mulheres adultas, de classe média, profissionais bem-sucedidas, com enorme aparato médico à disposição, simplesmente não faziam ideia que estavam grávidas.

Imagine uma criança de 12, 13 anos.

Se você, porém, apoia essa política, por favor não imagine. Pode, sei lá, pintar um clima.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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