Os caminhos e a missão da cultura – IREE

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Os caminhos e a missão da cultura

Ana de Hollanda

Ana de Hollanda
Cantora, compositora e ex-Ministra da Cultura



Por não haver somente uma interpretação para o que se costuma definir como cultura, seu amplo conceito acaba sendo usado aleatoriamente, mal compreendido e, não raro, voltando-se contra sua essência.

Do ponto de visto antropológico, é traduzido por costumes, línguas, tradições, crenças, culinária e uma infinidade de hábitos que herdamos de nossos antepassados, sem consciência exata de sua origem.

Nesse sentido, não faz sentido que se classifique pessoas ou povos como cultos ou não. Embora o termo já tenha adquirido essa conotação distorcida, o mais adequado, no caso, seria se usar a expressão “erudita”. Afinal os povos da floresta vivem, se alimentam e curam eventuais doenças usando produtos da natureza, conhecimento adquirido e praticado desde seus ancestrais. Qualquer um do meio urbano, mesmo com pós-doutorado em qualquer setor, dificilmente sobreviveria por muito tempo na mata, sem ajuda da cultura dos nativos.

Fernando Pessoa sintetizou essa identificação com os seus quando escreveu “Minha pátria é a língua portuguesa”, adaptada mais tarde por Caetano, na frase “Minha pátria é minha língua”.

Por ser uma terra habitada originalmente por indígenas sem uniformidade quiçá nas línguas, quanto mais nas culturas, o Brasil foi colonizado por Portugal que, por seu lado, também havia sofrido o domínio de vários povos, em especial mouros, e nos impôs uma cultura híbrida.

A vinda maciça de povos escravizados oriundos de várias regiões da África com diversos saberes, espalhados do norte ao sul da colônia, apesar da predominância da língua portuguesa principalmente na costa, provocou fusões que aumentaram nossa pluralidade cultural.

Ocupações francesas, holandesas, espanholas também deixaram suas marcas. Entre as últimas décadas do Império e as primeiras da República, o país passou a acolher levas de imigrantes de vários continentes que se estabeleceram e frequentemente formaram colônias nas terras agraciadas.

Com esses múltiplos cruzamentos, cada região desenvolveu costumes diferenciados nos hábitos, nas danças, nas músicas, no artesanato e nas vestimentas, entre outras. Não por acaso, encontramos manifestações fortemente populares como o bumba-meu-boi no Maranhão e em Santa Catarina, sendo que em cada local ele assumiu características próprias. Em compensação, contamos em nosso vocabulário com expressões não mais usadas nos países de origem.

As elites econômicas, desde o período colonial, enviavam seus filhos para estudar na Europa e de lá traziam informações e modismos que enriqueceram ainda mais a nossa cultura. Só como referência, ressalto o Barroco Mineiro, que se diferencia consideravelmente do europeu, sendo Aleijadinho considerado mundialmente um dos maiores gênios no estilo. As artes e a música popular também se beneficiaram bastante com a fusão de ritmos europeus com os brasileiros de origem africana, por exemplo.

Mas a mentalidade das oligarquias – que até então dominavam o país – de que arte de qualidade deveria tomar como modelo estilos franceses ou italianos, de que o “jeca” seria símbolo de mau gosto, de que o samba era música de “gentinha”, de que, para cantar bem, precisaríamos seguir as regras do “bel canto” só começou a mudar, timidamente, a partir do movimento modernista.

No entanto, se por um lado, o tal “complexo de vira-lata” foi sendo, aos poucos, superado por uma valorização das nossas características alegres, mestiças e tropicais, o peso do raciocínio capitalista, voltado para o “Mainstream”, passou a investir na cultura objetivando o lucro imediato e a desvalorização da criatividade.

Não tenho a menor dúvida de que a arte, em todas as suas linguagens, é a expressão mais autêntica do sentimento de uma pessoa ou um povo. A arte sequer está presa a compromissos com a verdade ou realidade, como o caso das ciências. Ela é livre para divagar, fantasiar, questionar, ironizar, transgredir e até incomodar. E, em função de sua liberdade nata, invariavelmente provoca reflexões e questionamentos diante de uma situação apresentada ou imposta.

Ao observar os dias de hoje neste Brasil dirigido por governantes intelectualmente limitados, intolerantes e autoritários, não é de se surpreender que seja a cultura um dos setores que mais sofreram desmontes na estrutura federal, além de ser alvo de constantes boicotes e censuras.

Só que governos totalitários um dia caem. E a cultura, como sempre foi, continuará cumprindo a sua missão rebelde de despertar o subconsciente dos seres para o que não é visível, traduzível, porém acessível através da sensibilidade.

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Ana de Hollanda

É cantora, compositora e ex-Ministra da Cultura. Além do trabalho na música, com cinco discos gravados, Ana estudou artes cênicas, foi atriz, dramaturga e produtora cultural. Foi Coordenadora de Música do Centro Cultural São Paulo, Secretária de Cultura do Município de Osasco, Diretora do Centro de Música da Funarte e vice-Presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

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