Os brasileiros têm pressa pela vacina – IREE

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Análises

Os brasileiros têm pressa pela vacina

Samantha Maia
Diretora de Comunicação do IREE



No início de 2021, depois de um ano tragicamente impactado pela pandemia de Covid-19, com 80 milhões de pessoas infectadas e 1,7 milhão de mortos em todo o mundo, os brasileiros assistem às notícias sobre o início da vacinação em diversos países sem perspectiva clara de quando também terão acesso à imunização.

Até dezembro de 2020, oito vacinas haviam sido aprovadas para uso por órgãos reguladores espalhados pelo mundo e ao menos 40 países já haviam iniciado a vacinação. O planejamento dos governos para fechar compras com antecedência com os fabricantes e a aposta em mais de um imunizante foram fatores cruciais para que países conseguissem começar a vacinar a sua população ainda em 2020.

O Brasil é considerado referência mundial em programas de imunização e produção de vacinas. O Programa Nacional de Imunizações, que existe desde 1973, funciona pelo trabalho integrado entre Ministério da Saúde, estados e municípios e garante aos brasileiros acesso gratuito a todas as vacinas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Diante da expertise acumulada, podia se esperar que o Brasil estivesse entre os pioneiros na campanha de vacinação contra a Covid-19, mas o que vimos foi uma atuação errática do Ministério da Saúde, que passou por duas trocas de comando durante a pandemia, e uma postura de insistente negação da ciência por parte do Presidente Jair Bolsonaro.

O foco na promoção de um medicamento sem eficácia comprovada para o tratamento da Covid-19, a demora para fechar acordo com fabricantes de vacina, o atraso na compra de seringas e uma aparente dificuldade na Anvisa em agilizar a aprovação das vacinas são exemplos de problemas de gestão que o Brasil enfrenta na pandemia que tornam o processo ainda mais difícil para a população.

O Ministério da Saúde diz que tem feito a sua parte e Bolsonaro chegou a culpar os laboratórios por falta de interesse em vender vacinas para o Brasil. O governo brasileiro apresentou um plano nacional de vacinação apenas no dia 16 de dezembro após pressão de governadores e da Justiça. O plano, no entanto, foi criticado por especialistas, que apontaram diversas lacunas no documento.

Antes disso, o governo de São Paulo anunciou o início da vacinação no estado para o dia 25 de janeiro com a CoronaVac. As doses para atender os grupos prioritários já estão disponíveis, e o governo paulista aguarda o resultado final de eficácia para pedir autorização para uso na Anvisa.

A maior aposta do governo federal é a vacina AstraZeneca, aprovada no Reino Unido em 30 de dezembro. O Brasil tem um acordo, via Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de compra de 100,4 milhões de doses, além de um acordo de transferência tecnológica para produção própria de até 210,4 milhões de doses para o SUS ainda em 2021. Para uma data de início de vacinação, falta a aprovação da Anvisa.

Segundo o secretário executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, o Brasil poderia começar a vacinação entre 20 de janeiro e 10 de fevereiro, a depender de uma série de fatores.

Os brasileiros têm o direito de exigir comprometimento do governo federal para iniciar a campanha de imunização o quanto antes. Já são mais de 190 mil mortos por Covid-19 no Brasil e 2021 começará sem o auxílio emergencial, importante política que ao longo de 2020 ajudou a reduzir a miséria em meio às dificuldades da pandemia. Como não ter pressa?



Por Samantha Maia



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