O varejo não acompanhou a alta do Ibovespa em 2023: por quê? – IREE

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O varejo não acompanhou a alta do Ibovespa em 2023: por quê?

Yasser Hatia

Yasser Hatia
Administrador especialista em varejo e serviços



O ano de 2023 foi positivo para a bolsa de valores brasileira e o Ibovespa, principal índice da B3 que reúne as ações das maiores empresas listadas, encerrou o ano com alta de 22,83%. Foi o melhor desempenho registrado desde 2019 e evidenciou que fatores externos positivos e o ciclo de corte na taxa de juros no Brasil contribuíram com a alta.

Apesar do fechamento ser próximo ao seu recorde histórico, sem considerar inflação, o ano começou com muitas incertezas: pela insegurança dos investidores com os gastos públicos, pela taxa de juros elevada, inflação elevada e pelo importante endividamento das famílias. Ao longo dos 12 meses, a bolsa registrou queda em quatro deles, sendo a maior perda em fevereiro (-7,49%), sob o impacto da fraude contábil das Americanas.

No cenário externo, o fim do ciclo da alta dos juros nos Estados Unidos e a sinalização de que o Banco Central norte americano (FED) poderá cortar suas taxas antes do previsto contribuíram para que os investidores estrangeiros alocassem parte de seus recursos em mercados emergentes, buscando retornos melhores. O fluxo de recursos estrangeiros na B3, registrou superavit de R$ 44,3 bilhões em 26 de dezembro. A representatividade do investidor institucional local e de pessoa física ainda continuam tímidos, com déficit de R$ 64,8 bilhões e superávit de R$ 1,05 bilhão respectivamente.

Mas mesmo neste cenário com variáveis positivas o Varejo não pode encontrar um porto seguro, ficando no lado negativo da bolsa de valores, apesar do setor ter crescido em torno de 1,8% em termos reais no ano, segundo a CNC. Além da Americanas, outra empresa que comunicou incoerências nos lançamentos contábeis foi a Magalu. Mas neste caso a empresa agiu rápido, mostrando tratar-se de erro e não de fraude, evitando perdas maiores. A empresa que registrou a maior perda no Ibovespa também foi de varejo, Casas Bahia, com queda de (-81,2%). Outras empresas de varejo que compõem a lista das maiores perdas na bolsa em 2023 são: Pão de Açúcar (-40,7%), Petz (-36,73%), Alpargatas (-32,89%), Assaí (-30,2%), Grupo Soma (-25,6%) e CVC (-22,05%). Mas, como toda regra tem exceção, na outra ponta, duas importantes redes de Varejo mostraram vitalidade. A C&A disparou 241,9% no ano e quadruplicou seu valor de mercado. Por sua vez a Vivara cresceu mais de 65% no ano.

Quais seriam as lições da C&A e da Vivara para um setor que tanto sofreu no ano? A C&A atende a um mercado de renda média e baixa. A Vivara atende a alta renda. A C&A fechou lojas durante o ano. A Vivara não parou de abrir, principalmente de sua marca Life, dirigida a classe média e que foi o carro chefe do crescimento da marca. Na verdade, o que as duas redes mostraram foi uma dedicação sistemática aos aspectos microeconômicos, de gestão e planejamento, tanto no que se refere a expansão ou contração de lojas quanto à administração de caixa. Como o cenário macro estava nebuloso, as duas marcas se voltaram para dentro, ajustando seus posicionamentos.

No aspecto macro o que claramente diferenciou o desempenho do varejo foi o grau de dependência de crédito. Tanto pelas taxas altas de juros quanto pela contaminação do caso Americanas, o crédito foi bastante restrito para o setor durante todo o ano. Basta ver que material de construção, vestuário e calçados e artigos de uso pessoal e doméstico caíram (-2,1%), (-6,7%) e (-11,3%) respectivamente. Por outro lado, varejistas que não dependem de crédito cresceram de forma importante. Combustíveis: 4,9%, Farmácias: 4,3% e Supermercados: 3,8%. Enquanto o setor de Supermercados abriu 49,2 mil vagas no ano, vestuário e calcados fechou 31 mil vagas, conforme dados da Confederação Nacional de Comercio de Bens, Serviços e Turismo.

Num ano marcado pelo otimismo, com a volta dos investidores estrangeiros na bolsa, principalmente no final do ano, a relevância do investidor Institucional brasileiro foi negativa e de pessoa física de pouca relevância. Mas a expectativa é de que a melhora na economia interna, o compromisso do governo com o controle dos gastos públicos e uma balança comercial positiva, que fechou o ano de 2023 com recorde de US$ 98,8 bilhões e alta de 60,6%, possam ser fatores que contribuam para aumentar a participação dos investidores domésticos nesse ano. Além disso, as empresas estatais entregaram uma boa performance, diminuindo o receio dos investidores locais sobre a maneira que o governo deve conduzir a gestão dessas companhias.

No caso do Varejo, para esse ano, o mercado está mais otimista e os investidores apostam na continuidade dos cortes da taxa de juros pelo Banco Central local. No caso do investidor estrangeiro, tudo depende da perspectiva do início dos cortes de juros pelo FED. Quanto mais cedo isso ocorrer mais cedo a bolsa brasileira receberá o importante impulso dos recursos externos. O varejo poderá, então, viver um ano mais promissor.



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Yasser Hatia

Empresário, graduado em administração de empresas pela FGV e mestre em gestão pela FGV Eaesp. Iniciou sua carreira no mercado financeiro atuando na área de fusões e aquisições. Atualmente exerce atividade profissional no segmento de varejo e serviço.

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